Histórias de uma Curitiba Plural

A caminhada pelo mundo

Um homem caminha lentamente. Ele admira a quantidade de informações que está recebendo na sua retina, todas advindas de um mundo quase perfeito existente. Esse mundo, na qual simplesmente a realidade habita, pode não ser tão percebido devido a correria de todos os dias. Entretanto, para esse homem a correria parece algo muito menor, se comparado as maravilhas a sua volta.

Assim age o protagonista de “O Homem que Passeia”, mangá de Jiro Taniguchi – de produções como “Guardiões do Louvre” e “O Gourmet Solitário”, ambas lançadas recentemente no Brasil. Nessa obra, vemos Taniguchi fazer uma carta de amor ao comum, a vida, e a toda uma existência. Aliás, isso torna sua leitura em um período de quarentena até mais estranha, e devidamente engraçada. É interessante como o olhar do personagem principal é de totalmente apaixonado pela vida, algo salientado pelos constantes desenhos de escala maior (na maioria em planos abertos), que irão destacar a mistura da natureza, casas e pessoas coexistindo. O cachorro, que aparece logo no início da HQ, é outro elemento que fortalece isso.

Aliás, é um caminho de uma poesia visual bem clara pela maneira que o autor retrata sua narrativa. Sem muitos balões, é quase como se Taniguchi desse, pela primeira vez, a oportunidade do leitor observar tudo a sua volta e não vidrado de um relato cotidiano. Para esse personagem, o cotidiano é verdadeiramente um olhar simplista e bastante sutil sobre a vida, algo diagramado sempre pelos seus olhares felizes e uma forma de sorriso para o mundo a sua volta. Mesmo quando ele quebra um óculos, isso também é um motivo de ver beleza.

Similar a uma poesia de clamor a existência, existe também um lado melancólico nisso tudo. É quase como se existesse uma ode a um passado na paisagem urbana, dominada ainda por uma vida bastante comum. As cidades gigantes e dominadas pelas tecnologias, não dão conta aqui. Aliás, a tecnologia é um elemento quase esquecido pelos olhares da narrativa. O importante desse DNA é mundano é muito mais a forma como os seres humanos vão visar os olhos diariamente.

Dessa forma, é possível perceber que “O Homem que Passeia” é quase que uma obra que olha com carinho para o simples. Por isso, é possível chamar quase que como uma poesia da vida. Jiro Taniguchi, em uma interessante entrevista publicada como extra na edição da Devir, conta que ama passear e olhar as coisas que não observa diariamente. Assim como seu poratagonista também se sente. Assim como parece que todos queriam se sentir, se não estivéssemos em quarentena. O comum, tão valorizado pelo autor, voltou a ser um tema de amor de todos.

Notícia da Semana. A Graphite Editora está com 3 obras que podem ser apoiadas no Catarse. Entre elas estão a continuação de Brad Barrow, aguardada por muitos, e duas edições de Nathan Never. A primeira é o início da série que começa a ser publicada e a outra uma edição especial da saga Futuro Duplo, em formato gigante.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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