O homem é os seus amores

Nos anos setenta/oitenta, meu pai tinha uma brasília bege. Por duas vezes, ela, a brasília, tentou nos matar: na primeira, numa retona ali perto de General Carneiro, a uns 140 por hora, o capô abriu na nossa cara e nos fez trafegar tipo uns 200 metros em modo jesus-acuda; na segunda, a roda dianteira esquerda saltou fora do eixo e saiu quicando pela rodovia, mas o carro, estranhamente, se manteve mais ou menos estável só com três rodas, o que me leva a crer que essa mania de fazer automóveis com quatro rodas é expediente da indústria pra rapinar os nossos bolsos.
Eu não gostava daquele carro e fazia campanha pela troca por algum outro, qualquer um, QUALQUER UM, mas isso nunca acontecia.
Até que, em 1989, numa das vindas do pai pra Curitiba, logo depois de eu ter passado no vestibular, o carro foi roubado.
Lamentei, claro, mas, ao mesmo tempo, fiquei meio contente, pois, por vias tortas, a hora da mudança tinha chegado.
Então o pai foi lá na loja e, fiel aos seus amores, comprou outra brasília, desta vez cinza.

——————————

Moral: a fidelidade, às vezes, não é uma coisa boa

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *