Cigarro é o novo Rajneesh

joão montepio alvarenga, 48, funcionário público, esquece-se da festa de aniversário do filho dos amigos no sábado à tarde, mas, mesmo assim, é perdoado e convidado para o raspa-tacho do dia seguinte, vai, embebeda-se, come dezoito brigadeiros que estavam reservados às crianças órfãs de paranaguá, termina sozinho ouvindo turn on the bright lights no sofá luís xv arrastado horas antes para o quintal junto com a piscina de bolinhas e o zoológico de pelúcia, chora um pouco (o álcool, aquela luz de fim de tarde, o laranja oblíquo se espatifando contra a parede), fuma o que resta do marlboro, mastiga em silêncio a dor que o mastiga também, e então, de repente, a brasa se desprende e mergulha

putaquepariu, cadê?, essa estampa linda, se manchar isso aqui eu me mato, mas onde?, aquela ótica de merda de brasília errou geral meu óculo, péra, a lanterna do celular, isso, fazer uma varredura, nada, deixa ver de novo, nada mesmo, ufffffff, deve ter caído na grama, porra que essa foi por pouco, até mereço mais um chopp

às sete vai embora, come o resto do capeletti da geladeira, mesmo embebido em álcool & zolpidem dorme muito mal, acorda cedo, abre as postagens de facebook e descobre que não apenas a brasa caiu no sofá como também fez um furo, e não apenas fez um furo como se alastrou pelo tecido, e não apenas se alastrou pelo tecido como incendiou todo o móvel que passava de pai para filho havia cinco gerações, e não apenas incendiou o móvel como queimou dezenas de cadeiras de plástico e a tenda sob a qual a festa aconteceu, e não apenas queimou a tenda e as cadeiras como as labaredas atingiram a casa financiada em cento e oitenta prestações cujo pagamento ainda nem tinha chegado à metade e a reduziram a cinza fumegante.

***

Moral: fumar é bom, fumar nos ajuda a compreender a transitoriedade de todas as coisas e a praticar o desapego dos bens materiais

(Tungzténio P. Garcia)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *