Pontes Outras, o projeto criado por mulheres para divulgar autoras estrangeiras no Brasil

Pontes Outras
Gabriela Mistral, Ursula Le Guin e Kathy Acker estão entre as mulheres traduzidas pela Pontes Outras

É sabido que Curitiba tem sido um celeiro de tradutores reconhecidos Brasil afora. E as mulheres, professoras e pesquisadoras da Universidade Federal do Paraná (UFPR), fazem parte deste cenário de uma maneira bastante forte. Além de reunir nomes como os das tradutoras Luci Collin, Janice Nodari, Sandra Stroparo e Miriam Adelman, a capital paranaense é o berço de um projeto de pesquisadoras da instituição e da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que busca dar mais visibilidade a traduções de textos escritos por mulheres. A Pontes Outras, como é chamada a iniciativa, tem possibilitado duas importantes ações: a divulgação de escritoras de outros contextos socioculturais que não costumam ser traduzidas no Brasil e a reflexão sobre o processo de tradução e crítica literária.

O projeto surgiu em 2017, depois que as integrantes – Emanuela Siqueira, Julia Raiz e Beatriz Regina Guimarães Barboza, se conheceram em um evento do Grupo de Estudos Feministas na Literatura e na Tradução, promovido pela UFSC, em Florianópolis. Elas perceberam afinidades de trabalho e decidiram encabeçar uma ideia que já vinham articulando há algum tempo enquanto pesquisadoras. “Iniciamos o projeto juntas, partindo de uma reunião via skype decidindo as primeiras diretrizes e, desde então, tentamos resolver tudo pela internet já que a Beatriz mora em Florianópolis e eu e Julia estamos em Curitiba”, relata Emanuela.

Julia, Beatriz e Emanuela: pesquisadoras colocaram em prática projeto para dar mais visibilidade a escritoras mulheres (Foto: Arquivo Pessoal)

Os primeiros textos a serem divulgados eram traduções desenvolvidas pelas três, em projetos nos quais cada uma estava trabalhando. Um site foi criado para armazenar o material e estabelecer, então, uma ponte entre os trabalhos, leitores e outras pessoas que atuam com tradução. “Abrimos o projeto com trabalhos que consideramos importantes de serem divulgados. Isso ajudou o site moldar um pouco seu estilo, mostrando que cada tradução ganhava uma reflexão e dialogava com o nome, de pensar pontes outras nas práticas e nos estudos da tradução”, observa a integrante.

Desde então, a Pontes Outras reúne 35 traduções de línguas que vão desde o catalão, árabe, variações do castelhano, espanhol, italiano a inglês do século XX e do XIX. Além de textos literários em prosa e poesia, o site também recebe ensaios, críticas e textos teóricos envolvendo autoria de mulheres e traduções. Todas as traduções enviadas são espontâneas e podem ser fruto de processos individuais ou coletivos, em duplas, trios ou outros grupos.

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“Cada texto tem uma boa história da nossa relação como editoras, mas ainda mais como leitoras em diálogo com essas/esses tradutores. A oportunidade de traduzir, ler e editar textos de mulheres, traduzidos de vários lugares do mundo nos faz criar pontes outras na condição de mulheres e tradutoras, permitindo também acesso às/aos leitoras/leitores”, reforça Emanuela, ao citar a tradução na Pontes Outras de autoras como Kathy Acker, pornógrafa e pirata conceitual nova-iorquina, Norma Hejleh da Fadwa Tuqan, poeta palestina que escreveu durante a calamidade dos conflitos entre palestinos e árabes entre as décadas de 1950 e 1970, a chilena Gabriela Mistral, vencedora do Nobel de Literatura, além de Sylvia Plath e Ursula Le Guin, essas últimas autoras em gêneros pouco conhecidos de cada uma.

“Mesmo pensando em línguas hegemônicas temos as particularidades dos textos de autorias diferentes, métricas e vozes poéticas que permitem que possamos desenvolver as reflexões que nos interessam na prática da tradução.  Na autoria de mulheres, não refletimos apenas sobre as questões que envolvem gênero e visibilidade, mas também as questões estéticas envolvidas nos textos dessas autoras. Muito provavelmente esse segundo ponto é o que mais oferece reflexões na prática de tradução, afinal precisamos traduzir não apenas a língua mas pensar como os dispositivos vão funcionar na língua de chegada”, assinala Emanuela.

Para ela, com o maior desenvolvimento das pesquisas na crítica literária feminista no Brasil, os estudos feministas na tradução têm acompanhado esse processo. Livros como Traduções da Cultura (2017, UFAL/UFSC e Editora Mulheres), pontua a pesquisadora, são resultados diretos dessas pesquisas de décadas.

Para conferir o trabalho da Pontes Outras, clique aqui.

Sobre Antoniele Luciano 121 Artigos
Antoniele é jornalista, professora e mestranda em Estudos Literários. Na academia, pesquisa e escreve sobre autoria de mulheres negras. Fora dela, caça histórias de protagonismo feminino em Curitiba e onde mais possam estar.

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