Pesquisadoras criam curso para debater saúde mental com recorte de gênero, raça e classe

Curso de extensão reuniu participantes de diversas regiões do Brasil (Foto: Bruna Martins Oliveira)

Saúde mental com recorte de gênero, raça e classe foi a base de um curso de extensão inédito no Brasil criado por pesquisadoras para discutir uma temática que ronda mulheres nos quatro cantos do país. A iniciativa, batizada de “Luta Antimanicomial e Feminismos: discussões de gênero, raça e classe para a Reforma Psiquiátrica Brasileira”, é fruto de uma parceria entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com o apoio do Núcleo da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas da Paraíba (RENFA). Ao todo, foram recebidas mais de 800 inscrições e selecionadas 40 mulheres para participar da programação. A capacitação ocorreu de 27 de abril a 4 de maio, no Rio de Janeiro.

A diversidade foi destaque entre as participantes: as aulas receberam ativistas, mulheres membros de projetos em comunidades como a da Maré, estudantes, psicólogas, cuidadoras, assistentes sociais e comunicadoras. A seleção, segundo a organização, buscou priorizar o acesso à universidade pública, considerando cor, gênero e classe social das inscritas. “Pensar esse curso na universidade é também pensar numa universidade preta, que vai pensar gênero, raça e sexualidade. É também ocupar os espaços que muitas dessas mulheres que estão no curso não entrariam”, afirma Rachel Gouveia Passos, professora da Escola de Serviço Social da UFRJ e organizadora da formação.

Todas as pesquisadoras e professoras convidadas também apresentaram perfil diverso, com profissionais negras e trans.

Primeira turma do curso de extensão: mais de 800 inscritas (Foto: Divulgação)

Demanda real

A temática do curso, segundo Rachel, vem sendo demandada pelo real. Ela explica que, neste contexto, uma das motivações para desenvolver e ofertar o curso de extensão foi a coletânea “Luta Antimanicomial e Feminismos: Discussões de Gênero, Raça e Classe para a Reforma Psiquiátrica Brasileira”, publicada em 2017 pela Editora Autografia, no Rio de Janeiro.  Organizado por Rachel e a pesquisadora Melissa Pereira em dois volumes, o trabalho reúne artigos de mulheres que  se dedicam à pesquisa do sofrimento mental, vinculado à raça e outras opressões no Brasil. 

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“O livro surgiu da nossa parceria com incômodos dentro do Movimento Antimanicomial e da Reforma Psiquiátrica Brasileira em relação ao apagamento dessas temáticas, não só enquanto temática, mas enquanto estratégia para pensar o quanto mulheres, negras, trans, cis, participam da construção e são apagadas nos múltiplos espaços, seja nos serviços, na formação, no espaço universitário, na pesquisa”, pontua Rachel.

Melissa, que é professora de Psicologia no Centro Universitário IBMR, reforça a importância, em meio à discussão sobre saúde mental e o Movimento da Luta Antimanicomial, de se aproximar de sujeitos deixados à margem no debate. “É muito importante que, cada vez mais, a gente se aproxime dessas mulheres que não ganham espaço, nem nos meios acadêmicos, nem nos meios históricos, nem na mídia e em nenhum espaço. São essas mulheres consideradas loucas, que são institucionalizadas, internadas. Elas também têm muito a ensinar pra gente e podem falar por si próprias”, destaca ela, ao enfatizar que discutir a problemática compreendendo questões interseccionais vai além de uma reflexão acadêmica. “Isso envolve uma revisão dos nossos lugares no mundo, de que lugares falamos, temos vantagens sociais e quem está nas desvantagens sociais a partir desses lugares”, assinala.

Nova turma

A próxima edição do curso de extensão está prevista ocorrer em agosto,  na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa.  A formação será realizada em conjunto com a Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (RENFA).  Mais informações podem ser obtidas junto às instituições envolvidas na capacitação.

A entrevista na íntegra com as organizadoras da coletânea “Luta Antimanicomial e Feminismos: Discussões de Gênero, Raça e Classe para a Reforma Psiquiátrica Brasileira” pode ser lida neste link.

Por Bruna Martins Oliveira, jornalista convidada pelo Maria Vai e Faz

Sobre Antoniele Luciano 119 Artigos
Antoniele é jornalista, professora e mestranda em Estudos Literários. Na academia, pesquisa e escreve sobre autoria de mulheres negras. Fora dela, caça histórias de protagonismo feminino em Curitiba e onde mais possam estar.

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