Cacique, educadora e ativista: a liderança indígena mulher no PR

Nauê é pedagoga e professora de Geografia em escolas públicas de Curitiba (Foto: Arquivo Pessoal)

Desde que saiu de Juruti (PA), há pouco mais de três anos, Nauê Japiim ou Michelli Silva, como é chamada fora da aldeia em que nasceu, em Parintins (AM), estabeleceu para si mesma uma missão: tornar a cultura do povo Munduruku conhecida no Brasil. O desejo de fazer com que povos originários da Amazônia fossem ouvidos a levou para a sala de aula e a uma série de conferências em Brasília, até se mudar para Curitiba. Hoje, ela se divide entre o trabalho como educadora e o ativismo no Paraná. “Vi que em Curitiba se tomavam decisões. Vim porque queria aprender mais e ter a possibilidade de ter voz”, diz a professora e pedagoga.

Além de pajé e cacique consagrada no Distrito Federal, Nauê é delegada da Conferência Nacional de Direitos Humanos e Igualdade Racial, membro da Casa da Mulher Brasileira, do Mulher Curitibana e conselhos municipal e estadual de Saúde. A amazonense também integra a Associação das Mulheres dos Povos Xetás, etnia com quem desenvolve projetos na capital.

Professora junto a lideranças indígenas nacionais durante conferência em Brasilia (Foto: Arquivo Pessoal)

Foi ainda menina que ela aprendeu a questionar as mazelas sociais que afetam seu povo. “Onde eu nasci, meus parentes não podiam pescar por causa da lei do Defeso, mas ao mesmo tempo havia grandes empresas que podiam pescar quando bem entendessem, enquanto meus parentes estavam passando fome. Eu ia para a beira do rio quando era criança e me questionava sobre o motivo de tantos conflitos”, relata.

Durante a infância na comunidade Paraná de Dona Rosa, na margem direita do Rio Amazonas, Nauê aprendeu a escrever sozinha, enquanto olhava inscrições na lataria de barcos e produtos como latas de óleo e caixas de leite. Memorizava a sequência das letras, mesmo não sabendo o significado da palavra elas que formavam. Era o começo de sua jornada de aprendiz.

Além da graduação em Geografia na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Nauê se formou em Pedagogia e se especializou em Metodologia do Ensino e Educação Especial e Inclusão. De olho no que acontecia na América Latina, desenvolveu projetos ambientais com mais de 2 mil alunos em sua terra. Mas, ao vir para o Paraná lecionar, teve de enfrentar uma outra face da Educação – o preconceito entre alunos e colegas de profissão. “Sofri muita violência quando fui para sala de aula porque o dialeto amazônico é diferente do daqui. Quando eu explicava, os alunos debochavam, riam, alguns professores também. Falavam que eu tinha que voltar para dar aula para macacos e outros bichos”, lembra.

Nauê em sala de aula: foi preciso enfrentar preconceito (Foto: Arquivo Pessoal)

Leia também: Nós, Madalenas: projeto fotográfico debate padronização da mulher

Mas ela não se deixou abater. Foi acolhida por Belarmina Paraná, liderança indígena com quem passou a participar de encontros e conferências. “Ela me amparou e me ensinou tudo”, conta a educadora, que também trabalha em busca de mais visibilidade para o povo Xetá. “Senti necessidade de estar com os Xetás porque senti que eles estavam como a gente lá, isolados e oprimidos. Estamos tentando fazer com que participem mais. Não quero que aconteça com eles o que aconteceu comigo.”

Liderança na Casa da Mulher Brasileira: trabalho sobre questões envolvendo mulheres indígenas (Foto: Arquivo Pessoal)

Acabar com a invisibilidade que envolve etnias como os Xetás, Caingangues e Guaranis, salienta Nauê, é tarefa, no entanto, de toda a sociedade. E é algo que está mais ao nosso alcance do que imaginamos. “As pessoas podem fazer isso dando voz a esses povos, chamando para movimentos, para palestras, tornando nossa voz visível. Com você conhecendo minha história e outras pessoas conhecendo, não vamos mais ser esquecidos”, acredita.

Sobre Antoniele Luciano 119 Artigos
Antoniele é jornalista, professora e mestranda em Estudos Literários. Na academia, pesquisa e escreve sobre autoria de mulheres negras. Fora dela, caça histórias de protagonismo feminino em Curitiba e onde mais possam estar.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*


Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.