Curitibana cria projeto para inserir migrantes e refugiados no mercado de trabalho

Capacitação: Linyon já atendeu 15 nacionalidades na capital paranaense (Foto: Divulgação/Linyon)

Quantas vidas você pode mudar, além da sua? A empreendedora curitibana Marcela Milano fez das dificuldades que teve para ingressar no mercado de trabalho na Irlanda, durante um intercâmbio, o gatilho para criar um projeto de empreendedorismo social capaz de impactar cidadãos de diversas partes do mundo. Em 2015, ela fundou o Linyon Global Workers, negócio voltado à integração de imigrantes e pessoas em situação de refúgio. A iniciativa já atendeu 15 nacionalidades na capital paranaense e deve ser estendida neste ano para Roraima, em função da crise migratória que envolve venezuelanos na região.

Marcela Milano: experiência na Irlanda foi gatilho para criação do Linyon Global Workers (Foto: Ebraim Martini)

Marcela recorda que durante sua passagem pela Europa enfrentou não só dificuldades para encontrar trabalho, mas para ter direitos básicos reconhecidos, como o pagamento em dia. Ela passou a refletir como essa situação tende a ganhar proporções ainda maiores quando envolve pessoas que têm apenas essa alternativa para sobreviver e sustentar a própria família, o caso pessoas em situação de refúgio. “Com o aumento exponencial de pessoas tendo que abandonar suas casas e países por conta de risco iminente às suas vidas, resolvemos iniciar o projeto conectando as empresas com demanda de mão de obra global aos refugiados qualificados que estão chegando no Brasil”, explica.

Na prática, a atuação do Linyon ocorre de três formas. A primeira é através da capacitação dos estrangeiros sobre mercado de trabalho e cultura brasileira, legislação trabalhista, formulação de currículos, simulações de entrevista de emprego e empreendedorismo no país. Depois disso, são buscadas empresas com demanda de mão de obra. O projeto faz a ponte entre os trabalhadores capacitados pela iniciativa e os contratantes. Para finalizar o ciclo, são realizadas ainda capacitações de Inteligência Cultural, a fim de preparar gestores, líderes e funcionários brasileiros em como tirar o melhor proveito da diversidade e transformá-la em inovação e criatividade para a empresa.

Projeto capacita estrangeiros sobre a cultura, legislação e mercado de trabalho brasileiros (Foto: Divulgação/Linyon)

Desafios

Hoje, além de aprender o português e conseguir um local para morar, a busca por um emprego em um contexto de crise econômica é um dos maiores desafios que estrangeiros encontram em Curitiba. Isso sem falar da discriminação racial. “Temos visto boas empresas dispostas a capacitar e contratar os migrantes, por enxergar o enorme potencial de transformação, inclusão e inovação, especialmente aquelas com operações internacionais. Porém, ainda vemos casos de discriminação, especialmente às pessoas de origem africana. Além da recolocação profissional, o conhecimento sobre direitos e obrigações trabalhistas no Brasil é essencial para que situações de trabalho escravo ou de exploração econômica dos migrantes seja evitada e eles saibam os limites da relação entre colaboradores e contratantes”, salienta Marcela.

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Bode expiatório

A empreendedora observa que, em meio a lideranças populistas e nacionalistas que colocam migrantes e refugiados como bode expiatório de problemas econômicos no mundo todo, é necessário entender que não se tratam de pessoas que são refugiadas, mas que estão refugiadas. Desta forma, é possível parar de olhar esse público como um invasor, mas como seres humanos que são.

 “O refúgio é algo que pode acontecer com qualquer um de nós, basta estarmos no lugar errado, na hora errada. Essas pessoas têm histórias, famílias, experiências profissionais, lembranças e cultura. Isso deve ser respeitado e valorizado, ainda mais considerando um país que cresceu e se desenvolveu por conta da contribuição fundamental dos migrantes que aqui viveram e vivem até hoje. Todos nós temos origem migratória, basta analisarmos nossos sobrenomes”, pontua Marcela, ao avaliar que 2019 será um ano de muito trabalho. “Entendemos que precisaremos falar mais da causa para evitar novos casos de discriminação, como vimos acontecer de forma crescente em 2018.”

A maioria do público atendido pelo Linyon vem da Síria, Venezuela e República Democrática do Congo.

Sobre Antoniele Luciano 119 Artigos
Antoniele é jornalista, professora e mestranda em Estudos Literários. Na academia, pesquisa e escreve sobre autoria de mulheres negras. Fora dela, caça histórias de protagonismo feminino em Curitiba e onde mais possam estar.

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