“Somos resistência concreta”: a história da primeira travesti negra doutora do Brasil

Megg Rayara durante defesa de tese: "Educação é emblemática para travestis e transexuais" (Samira Neves/UFPR)

Megg Rayara Gomes de Oliveira é a primeira travesti negra a conquistar o título de doutora pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba. O engajamento dela para dar visibilidade à comunidade travesti e trans vai muito além do Dia 29 de Janeiro, data em que se celebra a causa. Em sua tese de doutorado, defendida no final de 2017, a pesquisadora mostrou como a homofobia, a transfobia e o racismo são marcadores significativos no processo de exclusão dos estudantes. “Era muito difícil que alguns professores entendessem isso, como se fosse para justificar que não nos esforçamos o suficiente para estar ali”, lembra.

Para a professora, a educação é emblemática para travestis e transexuais. Essa, inclusive, foi a alternativa encontrada por ela para fugir da prostituição, um destino comum para essa população, em meio à violência e à ausência de direitos. “Eu precisava construir um caminho de autonomia e sobrevivência”, conta Megg.

A permanência no ambiente acadêmico também não foi uma experiência fácil, por diversos motivos. Entre eles, a necessidade de performar uma identidade que não existia, para sobreviver naquele ambiente e alcançar seus objetivos. “Mas eu tinha consciência de que era algo transitório”, recorda a professora, que hoje inspira suas iguais a virarem o jogo dentro das universidades.

Banca e auditório lotado no dia em que Megg Rayara defendeu tese (Samira Neves/UFPR)

Pesquisa

Estima-se que mais de 5 mil pesquisadores travestis e transexuais já solicitaram ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) o direito de usar o nome social no Currículo Lattes, plataforma virtual que reúne dados de todos que desenvolvem atividades de pesquisa no Brasil. O nome social é o nome pelo qual travestis ou transexuais optam por serem chamados, em contraste com o nome civil registrado e que não reflete sua identidade de gênero. A medida foi autorizada e seguida por outras instituições públicas, como universidades e o Sistema Único de Saúde (SUS).

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“Temos pautado o lugar da trans enquanto pesquisadora e não mais como objeto a ser pesquisado. Não nos querem como colegas, mas como cobaias. É um enfrentamento”, observa Megg.

Enfrentamento também deve ser a palavra-chave para manter direitos no cenário político que se apresenta no país. O caminho, salienta a travesti, é  procurar não ficar de fora do debate. Os movimentos sociais precisam estar articulados. “Temos condições de falar por nós, vamos continuar sendo resistência concreta e não simbólica. O que está sendo apresentado para as pessoas é uma situação que sempre vivemos”, pontua.

Sobre Antoniele Luciano 122 Artigos
Antoniele é jornalista, professora e mestranda em Estudos Literários. Na academia, pesquisa e escreve sobre autoria de mulheres negras. Fora dela, caça histórias de protagonismo feminino em Curitiba e onde mais possam estar.

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