Leia Mulheres: coletivo debate obras de escritoras em Curitiba

Leia Mulheres
Encontro que discutiu livro de Rebecca Solnit: participação acima de média (Foto: Fernanda Maldonado)

Quantas mulheres você leu no ano passado? Ou melhor: quantas autoras mulheres você já leu em toda a sua vida?

Desenvolvido há quatro anos em Curitiba, o projeto Leia Mulheres é uma iniciativa que não deixa brechas para desculpas comuns, como falta de conhecimento sobre escritoras e suas produções. O coletivo começou em 2015, quase ao mesmo tempo que o Leia Mulheres de São Paulo, que, por sua vez, iniciou a ação no Brasil, logo após a movimentação do #readwomen2014. Hoje, já são 105 cidades com clubes ativos com leituras mensais de obras produzidas por mulheres. Só na capital paranaense, pelo menos 40 livros já foram devorados pelas participantes do coletivo desde do primeiro encontro.

Na primeira reunião, a conversa teve como centro Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf, e ocorreu em uma livraria da cidade. Desde então, os encontros, realizados geralmente no último fim de semana do mês, são itinerantes e organizados pela mestranda em Estudos Literários, tradutora e crítica de cinema Emanuela Carla Siqueira. Além da curadoria, ela anuncia os livros a serem lidos, cuida da logística do encontro e faz a mediação e debate com as leitoras na data e horários combinados. A média de participantes gira em torno de 20 pessoas por encontro, embora já se tenha reunido 60 leitores de uma só vez. Mulheres não só levam outras mulheres para o clube, como homens também. Nessa ocasião, em especial, o livro do mês era Os Homens Explicam Tudo Pra mim, de Rebecca Solnit.

Foto: Fernanda Maldonado

Segundo Emanuela, além da rede de leitura, o Leia Mulheres criou grupos de afeto, pesquisa, tradução e parcerias profissionais. Do coletivo, nasceu ainda um grupo no Facebook que reúne mais de 1,5 mil membros. “Muitas pessoas que nunca conseguiram ir nos encontros mandam mensagem dizendo que sempre leem os livros e acompanham as postagens”, observa a organizadora. Ela assinala que outro fato importante relacionado ao projeto é a participação do Leia Mulheres nos processos de mudança de lógica das editoras brasileiras.

“Se você for passar o olho pelos catálogos das grandes editoras – nem vou mencionar as pequenas, que realmente têm criado redes emancipatórias de escritoras e não apenas de representatividade – vai perceber que elas aumentaram substancialmente o número de mulheres a serem editadas. Livros mais básicos, de não-ficção, como O Segundo Sexo e Um Teto todo Seu ganharam (re) ediçõeselaboradas e passaram a ter mais impressões. Ou livros importantes como Mulheres Raça e Classe, da Angela Davis, e Ensinando a Transgredir, da bell hooks, ganharam traduções depois de anos de seus lançamentos originais. Imagine na literatura, que é o nosso foco”, pontua.

As leituras

Atuando com mediação de leitura desde 2009, Emanuela comenta que trabalhar com obras de autoras mulheres possibilita uma multiplicação das discussões. Isso porque, além de trazer novos leitores, as participantes incentivam a leitura e o debate sobre o livro em redes sociais e presenciais. “É muito gratificante discutir um livro e ter uma pluralidade de público que traz novas leituras, discussões, conceitos e complementação de leituras. É um enorme aprendizado. Nós estamos lendo mulheres uma vez por mês, parece algo muito específico, mas estamos construindo olhares outros para relacionamentos entre humanos e não-humanos, inclusive. Discutimos política, religião, economia tendo como partida a literatura escrita por mulheres. É uma grande transformação, e ainda melhor, feita em coletivo”, define.

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Para ela, trata-se de um trabalho fundamental, sobretudo no momento de esvaziamento das discussões e negação da leitura e pesquisa no Brasil.  Por isso, a mediadora enxerga o clube como uma das principais iniciativas de resistência na cultura. “Não tenho dúvidas que isso seja um projeto de transformação, de prática de sororidade e construção de um país mais leitor (leitora, ué) e questionador. O Leia Mulheres é coletivo porque exige não apenas o esforço e trabalho de cada mediadora que está na luta, mas também do público. Costumo dizer que eu não faço o Leia Mulheres Curitiba sozinha porque temos sempre alguém que ajuda no diálogo com os espaços (que tento fazer de forma itinerante), pessoas que trazem chá, café e comidinhas para os encontros. Tem a ajuda na divulgação e claro, a participação fiel”.

Calendário

Os livros a serem discutidos no primeiro semestre de 2019 já foram divulgados pelo Leia Mulheres Curitiba. O foco é literatura brasileira. Para o segundo semestre, já estão previstos o Café Ferrante, sobre a tetralogia de Elena Ferrante, e uma escritora russa do século 19.

Para a curadoria, Emanuela afirma que busca prestar atenção no mercado editorial, pesquisas acadêmicas dentro da crítica feminista e pautas urgentes ou com pouco debate. A ideia é propor leituras que fujam de títulos que já recebem atenção de suplementos culturais e recém-lançados pelas editoras.

A participação nos encontros é gratuita e aberta ao público. O livro de janeiro será debatido no próximo dia 26, às 15h, na Casa de Leitura Hilda Hilst (Av. Prefeito Maurício Fruet, 2150, Cajuru).

Veja o cronograma completo de leituras até julho:

Janeiro

Memorial de Maria Moura, de Rachel de Queiroz

Fevereiro

Inferior é o Caralh*, de Angela Saini

Março

Todo mundo merece morrer, de Clarissa Wolf

Abril

Água Funda, de Ruth Guimarães

Maio

Um Exu em Nova York, de Cidinha da Silva

Junho

O Auto da Maga Josefa, de Paola Siviero

Julho

Luzes de Emergência se Acenderão automaticamente, de Luisa Geisler

Sobre Antoniele Luciano 119 Artigos
Antoniele é jornalista, professora e mestranda em Estudos Literários. Na academia, pesquisa e escreve sobre autoria de mulheres negras. Fora dela, caça histórias de protagonismo feminino em Curitiba e onde mais possam estar.

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