Oficina de fotografia qualifica presas da RMC e concorre a prêmio nacional

Fotografia produzida por aluna de oficina de indicada ao Prêmio Innovare (Divulgação/UFPR)

Quando você pensa em fotos de presidiárias, o que lhe vem à mente? A fotógrafa Izabel Liviski, ao elaborar seu projeto de doutorado na Universidade Federal do Paraná (UFPR), quis ir além dos estereótipos quando o assunto são imagens capturadas no sistema carcerário. Ela idealizou uma oficina de fotografia com mulheres presas no Presídio Central Estadual Feminino, em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). A iniciativa foi colocada em prática com o também fotógrafo Cadu Silvério, em 2015, e hoje concorre ao Prêmio Innovare 2017, premiação que busca o aprimoramento da Justiça no país.

“Percebi que as imagens que os fotógrafos faziam, tanto de presidiários quanto de mulheres presidiárias, eram sempre as mesmas, aquelas mulheres tristes, deprimidas, cabisbaixas, aquele ambiente horrível”, relata a pesquisadora. Ela viu neste contexto a oportunidade de promover a sensibilização visual das presas, combinada com a qualificação profissional delas.

Izabel recorda que, no início, as dez alunas envolvidas na oficia ficaram desconfiadas sobre como poderiam produzir imagens dentro do presídio. “Elas diziam: ‘Nós vamos fazer o curso, mas nós não temos o que fotografar aqui dentro, aqui só tem grades, só tem muros’”, conta. No entanto, com as atividades da oficina que buscaram desenvolver uma visão mais sensível sobre a leitura e produção de imagens, as presas puderam descobrir temas e ampliar a visão sobre si mesmas e o ambiente em que estavam.

Fotografia produzida durante oficina na penitenciária de Piraquara (Divulgação/UFPR)

Portfólio

Se no início, as mulheres só enxergavam grades, cadeados e cercas elétricas, com o passar da oficina, começaram a ir além, praticando fotografia e composição. Elas passaram então a perceber outras coisas naquele cenário: as atividades ajudaram a ampliar o horizonte das alunas. Ao final do curso, elas montaram um portfólio com as imagens produzidas. Os temas escolhidos foram desde o cotidiano na prisão a expressões e detalhes de mulheres detidas.

“O curso de fotografia possibilitou que eu pudesse fazer parte de algo que me transformou e me motivou a encontrar, dentro de mim, dons e talentos ocultos. A fotografia me ajuda a expressar o meu outro eu, criativo, cheio de emoções e sonhos,” conta Sofia, uma das alunas.

Making of de aula prática de fotografia na penitenciária de Piraquara (Divulgação/UFPR)

Inclusão e ressocialização

A idealizadora do curso destaca as mudanças que percebeu nas mulheres ao contrastar as imagens que produzem com suas histórias de vida e o contexto no qual estão inseridas. “Ao desenvolver o protagonismo do olhar, de algum modo se está promovendo a visibilidade destes indivíduos, como também se está contribuindo para seu processo de inclusão e ressocialização”, avalia.

A iniciativa foi coordenada pela professora Sonia Maria Chaves Haracemiv, do Setor de Educação da UFPR. A professora co-orientou a tese de Liviski ao lado do professor Pedro Bodê, do Departamento de Ciências Sociais.

A maior parte das participantes da oficina já está em liberdade assistida ou em regime aberto.

O resultado do Prêmio Innovare 2017 será divulgado em dezembro.

Sobre Antoniele Luciano 122 Artigos
Antoniele é jornalista, professora e mestranda em Estudos Literários. Na academia, pesquisa e escreve sobre autoria de mulheres negras. Fora dela, caça histórias de protagonismo feminino em Curitiba e onde mais possam estar.

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