O doente operático

Começou com minha filha de dois anos. Febre, umas pintinhas no corpo e lá fomos nós para duas horas de fila no hospital pediátrico numa noite de domingo. O diagnóstico foi a tal síndrome “mão pé boca”. Já tinha ouvido falar, nunca tinha visto. Deu peninha dela, mas a médica disse que logo passava.

Aí pegou na nossa caçulinha, de seis meses (o contágio é pela saliva, e a Ana Clara é uma exímia ladra de chupetas da irmã, deve ter sido isso). A Gabi nem precisou ir ao médico: só adaptamos a dose do remédio via Whats e cuidamos da baixinha. A casa parecia uma enfermaria, mas as coisas estavam caminhando.

Tudo desandou mesmo quando um paciente bem mais frágil do que as duas foi contaminado. O pai delas. No caso, eu. Além da baba, o cocô de quem está com essa tal doença é radioativo, e como eu limpo a bunda delas em boa parte das vezes, fui brindado com uma dose de vírus.

No sábado eu estava me sentindo estranho. Tentei levar na boa. Até perceber que parecia que estava com febre. Peguei meu termômetro de mercúrio (esses outros digitais são todos fake news, como diria o Trump). Estava com 39,3ºC. Começou o caos. Imediatamente acionei meu mecanismo de velho gemebundo.

A Rosiane já sabe. Eu sou o pior doente que existe. Sofro em doses épicas, operáticas. Dizem que é coisa de homem. Pode ser. Lembro um tio que nunca teve nada até uns 70 anos. Quando foi operar a vesícula, chorava desesperado, e disse uma frase que virou um clássico na família. Aos dois filhos, pediu: “Vão, e só voltem quando acharem uma solução”.

As meninas tiveram “bolinhas”. Em mim, foram pústulas. Não pela diferença de tamanho. É que eu, como sei falar, e tenho preferência lexical pelo dramático, preferi ter pústulas. A síndrome tem um nome infantil demais para ser levada a sério, então eu precisava reforçar a dor e o incômodo para valorizá-la.

Logo estava mandando mensagens para meu irmão mais velho. Reclamava das bolhas nas solas dos pés. “Acho que se eu me atirar rolando escada abaixo chego na cozinha com menos dor do que se for andando na escada.”

Estava incapacitado para o trabalho, decidi. Sucumbi do modo glorioso que só um hipocondríaco ou um doente dramático podem fazer. (As bolhas realmente incomodam pacas.)

Minha mulher acalmava as pessoas no grupos de Whats ou dizendo que eu não estava tão doente quanto fazia parecer (não, moribundo era uma palavra forte) ou desabafando o que eu fazia a família passar (talvez a gente sacrifique logo pra acabar com esse sofrimento. O nosso, digo).

Apesar de tudo, ela sabia que estava doendo e me ajudou. (Uma santa, como se dizia antes desses tempos de balbúrdia.) Até por que, se não ajudar, pode ser pior. Além da gemeção, vem a agonia dos desvalidos, dos abandonados. Dos que foram abandonados à própria sorte e a um vírus infantil.

Agora a coisa está passando. Cancelei o pedido de sapatos com rodinhas. Parei de descer a escada de bunda. E já não mando mais boletins diários via whats para os grupos mais próximos (alguns com fotos hediondas das pústulas nos pés).

Se tudo der certo, mais uns dias e estou pronto para a vida normal, até o próximo dodói.