O que fazer – e o que não fazer – para apoiar uma mulher vítima de violência de gênero

A família e as pessoas mais próximas tem um papel fundamental na vida de uma mulher que sofreu violência de gênero, seja doméstica ou sexual. A depender do comportamento dessas pessoas, o sofrimento por conta da violência pode ser atenuado – caso haja a construção de uma rede de apoio respeitosa e carinhosa, mas também pode se perpetuar infinitamente – caso a mulher continue sendo revitimizada pelos mais próximos.

Quando uma mulher vítima de violência de gênero rompe com o silêncio e decide expor as situações que viveu para a família, para os amigos, para o companheiro ou companheira, essas pessoas tendem a desenvolver um instinto de proteção que as leva a tentar tomar as rédeas dos eventos. É normal que a pessoa tenha um forte impulso de assumir as decisões no lugar da mulher e passe a, por exemplo, sugerir enfaticamente quais os próximos passos, expor a situação para o restante da família e amigos ou comece a tomar iniciativas com as quais a mulher em situação de violência não concorda.

Na sociedade machista em que vivemos, esse impulso é quase compreensível e se disfarça de preocupação ou de zelo, porque somos todos condicionados a sentir compaixão por uma mulher em situação de violência; somos compelidos a tutelá-la e não a contribuir para sua emancipação. O que essa postura omite é que naturalmente pressupomos que uma mulher em situação de violência não está em sua plena capacidade para tomar decisões objetivas e necessárias, colocando-a novamente em uma posição de submissão.

Essa postura faz com que a mulher seja violada em sua autonomia, dignidade e privacidade. Esses erros são absolutamente comuns, mas tem consequências muito graves, porque podem colocar a mulher em uma situação de incapacidade, que a abduz da resolução de seus próprios conflitos.

Isso também é o que chamamos de revitimização. Ou seja, quando após uma violência, uma mulher novamente é violentada, por conta do abuso que sofreu. Esses processos acontecem dentro das instituições e nelas tem sua faceta mais cruel, mas também dentro de casa, junto dos companheiros, amigos, familiares.

Para reverter essa postura que coloca a mulher vítima de violência como incapaz, precisamos ter em mente que é preciso respeitá-la. Ter como prioridade a privacidade e a autonomia da mulher é que fazem a maior diferença, e não empurrá-la para decisões que, para quem está olhando de fora, parece a mais adequada, mas que para a mulher envolvida representam uma nova forma de violação.

Como então representar esse apoio de uma forma efetiva, para auxiliar a mulher, sem colocá-la novamente em risco e também respeitá-la em sua autonomia? Em primeiro lugar, pergunte a mulher como ela está se sentindo e como pretende agir a partir daquele momento. Diante da resposta dela, escute o que ela tem a dizer, e, mesmo que você não concorde ou então  ache que ela está tomando decisões erradas, não julgue! Mulheres em situação de violência doméstica estão submetidas a fatores muito diversos que podem dificultar o processo de interrupção do ciclo de violência; assim como mulheres que sofreram abusos sexuais podem estar muito envergonhadas ou culpadas para denunciar, por exemplo.

Se a mulher não reconhece o que viveu como violência, mas der alguma abertura, ajude-a a informar-se, enviando, por exemplo, materiais educativos, cartilhas; sempre de forma carinhosa e atenta. Lembre-se que dizer friamente a uma mulher, que não tem essa compreensão sobre os fatos, por exemplo, que ela foi estuprada, pode ser muito impactante e dolorido.

Diante de todas essas informações, acolha a mulher e tente apoiá-la, oferecendo ajuda prática, como acompanhá-la a uma advogada ou a uma delegacia, apoio financeiro, ajuda com os filhos – se for o caso; ou seja, procure auxiliar dentro de suas condições conforme as demandas dela.

O ideal é sempre que a mulher tome a decisão de romper com ciclos de violência de forma autônoma e, por isso, é importante conversar com ela e apoiá-la, mas caso haja situações de ameaça, com risco de vida ou então à integridade física, por exemplo, é importante interferir e denunciar.

Se a mulher não quiser seguir por esse caminho, as pessoas mais próximas devem instruí-la a documentar as violações, tirando fotos das marcas no corpo, guardando prints da tela das mensagens contendo ameaças, registrando de alguma forma a situação que acontece. Caso a mulher não queira denunciar, é importante que ela tenha as provas para quando decidir fazê-lo. No caso de violências sexuais, a vítima deve ser instruída, em primeiro lugar, a buscar serviços de saúde para profilaxia de possíveis contaminações e prevenção de gravidez.

Essa são algumas dicas que podem ser úteis, mas é sempre fundamental ter em mente que é imprescindível respeitar a mulher e escutá-la. Mulheres em situação de violência podem estar fragilizadas, mas devem ser ouvidas e apoiadas. Na maioria das vezes, a melhor forma de contribuir é fortalecer a mulher, reconhecendo sua autonomia e ouvindo-a sem julgamentos.

Mariana Paris

Advogada especializada em direitos das mulheres. Mestranda na UNB. Pesquisadora na Clínica de Direitos Humanos da UFPR. Textos sobre direitos, feminismo e gênero.

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