A reabertura dos shoppings em Curitiba e o porquê a pandemia do Coronavirus é também uma questão de gênero

Fonte: Unsplash

Com a reabertura de muitos serviços em Curitiba, não estamos falando o suficiente sobre o quanto essas medidas impactam diferentemente homens e mulheres

Os gêneros são afetados de forma diferente durante pandemias e essa não é uma novidade mostrada pelo Coronavirus. No Brasil, durante a epidemia do Zika, em 2015-2016, as mulheres pobres, aquelas únicas responsáveis pelo sustento de seus lares, de regiões vulnerabilizadas do país, notadamente o Nordeste, foram as mais impactadas pela doença e até hoje sofrem com o abandono estatal. A falta de acesso a serviços de saúde e assistência social nega a elas e a seus filhos a dignidade de uma forma arrebatadora e chocante.

Durante episódios como do Zika e do Coronavirus, fica claro que os perigos para as mulheres são vários: a violência doméstica cresce em casa, um espaço privilegiado de violência contra a mulher; o desamparo social atinge com mais força as que estão na ponta da precarização do trabalho e faz com que as elas sigam trabalhando mesmo de forma insegura; e também o fato de que são as mulheres as principais responsáveis pelo cuidado, seja das crianças ou de idosos. O confinamento provoca o rompimento dos laços que apoiam esse cuidado e tornam ainda mais precária a vida das mulheres.

Prova de que a pandemia atravessa a vida das mulheres de forma complexa e dura, independente de marcadores sociais – embora esses agravem os sofrimentos e exponenciem vulnerabilidades – é que, por um lado, as mulheres acadêmicas viram sua produção reduzir drasticamente desde o início de 2020 (durante a pandemia, as submissões de artigos de mulheres caiu drasticamente em relação ao mesmo período nos anos anteriores), por outro, é preciso relembrar que a primeira vítima fatal do vírus no Rio de Janeiro foi de uma mulher de 63, empregada doméstica de uma família no Leblon, no Rio de Janeiro. A senhora foi contaminada pela patroa, que havia viajado para a Itália.

Os privilégios das mulheres com trabalhos intelectualizados que podem ser executados em home office não apagam as dificuldades impostas pela pandemia, que, sem dúvidas, afeta com mais violência as mulheres na linha de frente do enfrentamento à pandemia, as enfermeiras, técnicas e auxiliares de enfermagem, as empregadas domésticas e trabalhadoras precarizadas.

Curitiba, por outro lado, já vivencia a reabertura do comércio, shoppings, bares, restaurantes, igrejas, etc, sem levar em consideração qualquer um desses fatores. Observa um aumento nos casos, em meio a promessas do poder público de fiscalização e monitoramento, mas não discute sobre o impacto dessa reabertura sobre as mulheres.

Uma rápida olhada para dentro das lojas dos shoppings de Curitiba permite identificar o perfil de quem lá trabalha. Seja como vendedora, profissionais das equipes de limpeza, caixas e atendentes de grandes lojas, a maioria delas são mulheres de variadas faixas etárias, com jornadas de trabalho exaustivas e vínculos precários.

São as trabalhadoras precarizadas dos shoppings centers que retornarão ao trabalho, usando o serviço de transporte público e elas que não terão rede de apoio disponível para delegar suas funções de cuidado. Não há resposta para como conciliar essas jornadas em segurança; esses temas nem tem sido pautados nas tomadas de decisões sobre a pandemia.

Prova disso é que à medida que as mulheres são prejudicadas pelo isolamento, ou sobrecarregadas com os trabalhos domésticos, ou obrigadas a continuar e serviços precarizados, os homens, pela primeira vez confrontados com a vida doméstica em tempo integral, não reconhecem esse espaço; seguem espalhando piadas terríveis sobre o quão insuportáveis são suas esposas e o convívio em família.

Esse contraste é sintoma de que há algo errado em como enxergamos o cuidado doméstico. Se antes considerávamos que as mulheres, em sua vida privada, poderiam dar conta do cuidado das crianças e dos idosos, a pandemia do Coronavírus escancarou a precariedade dessa configuração e nos fez lembrar da importância das proteções sociais pelo Estado.

Essas diferenças não são novidades postas pela pandemia do Coronavirus, mas a forma como lidamos com elas pode ser. Pela primeira vez, podemos de fato encarar esses marcadores, darmo-nos conta de nossos privilégios e do quanto nossos problemas gerados pelo isolamento, o home office, a alteração das nossas formas de sociabilidade são questões reais e dolorosas, mas que também são somente a ponta do iceberg para um problema mais profundo: é preciso usar essa ruptura econômica, política e social para ressignificar nossas formas de convívio a partir de valores feministas. Curitiba desperdiça essa oportunidade, mas ainda não é tarde para trazer esses temas à tona.

As respostas à pandemia não estão no simplista e suposto embate entre economia X saúde. Elas precisam, em vez disso, ser pensadas à luz do gênero, da raça, classe social e dos marcadores de diferença. Como clara e afetuosamente nos convida a professora e antropóloga da UNB Debora Diniz, o experimentar do desamparo causado pela pandemia precisa nos mobilizar para a consciência de nossos privilégios, para a valorização da ciência, do papel de um Estado presente e para significar essa ferida a partir da transformação social e inclusão dos vocabulários feministas em nosso cotidiano.

Mariana Paris

Advogada especializada em direitos das mulheres. Mestranda na UNB. Pesquisadora na Clínica de Direitos Humanos da UFPR. Textos sobre direitos, feminismo e gênero.

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