“Aviso de gatilho”: uma estratégia de empatia para lidar com a violência de gênero

Lidar com as questões ligadas à violência de gênero exige empatia. Avisar que o conteúdo que estamos disponibilizando pode disparar angústia é um cuidado necessário e que pode fazer muita diferença. 

Se você já frequentou um evento, seja curso, palestra, oficina, no qual se discutia violência de gênero, é provável que você tenha sido exposta, pela pessoa que o conduzia, a relatos de abusos, violências ou a conteúdos fortes usados para sensibilizar a audiência. Nesses espaços, é comum acreditar que o engajamento do público depende ou pelo menos será facilitado pelo uso de vídeos, imagens com estes conteúdos explícitos. É bem recorrente que pessoas que abordam esses temas busquem em argumentos chocantes uma forma de “quebrar o gelo” para a conscientização dos ouvintes para o tema, ou seja, para mostrar para quem ouve que a violência contra mulher é um tema impactante e que precisa despertar em nós reações que contribuam para o fim dessas violências. 

Não duvido das boas intenções das pessoas usam essa estratégia para forçar a sensibilização em suas falas e palestras. Questiono, na verdade e com veemência, o uso desses recursos diante do impacto que eles podem ter na saúde emocional das pessoas presentes. Quando somos expostos a esses conteúdos em campanhas na televisão, no youtube, nas nossas redes sociais, podemos mudar de canal, virar os olhos, fechar a aba. Em palestras, cursos, aulas, a audiência está lá e lá deve permanecer vinculada ao palestrante em quase sempre relações hierárquicas que dificultam que se diga “Ei! Não estou pronta e nem quero ser exposta a esse conteúdo!”. O resultado é que não saberemos quem, entre nossos ouvintes, foi para casa com uma angústia profunda. 

Eu não duvido que a violência contra a mulher é sim um assunto que depende da conscientização das pessoas ao nosso redor e devemos fazer isso quando temos a oportunidade, mas essa sensibilização precisa ser feita levando em conta critérios de empatia e cuidado com a saúde de quem nos ouve. 

É por isso que, com o crescimento dos compartilhamentos de relatos de violência sexual, física, etc, nas redes sociais, tem se estimulado o uso da expressão “trigger warning” traduzido como aviso de gatilho. Usar essa expressão significa notificar a leitora ou o ouvinte que o conteúdo seguinte pode desencadear fortes emoções. É claro que diversos fatores podem disparar emoções fortes nas pessoas e é impossível prevê-las todas. Por outro lado, há conteúdos que essa probabilidade é mais iminente. É o caso da violência contra mulher e para abordar esse assunto, é necessário empatia, solidariedade e cuidado, já que ainda que no afã de chocar para a sensibilização, podemos colocar o público diante de nós em situação vulnerável. 

Sobre o uso de imagens fortes para a gerar simpatia, há estudos recentes que mostram que esse conteúdo divulgado pelo jornalismo pode despertar altos níveis de angústia e que os veículos precisam assumir essa responsabilidade. Questiona-se, inclusive, sobre o custo-benefício desse uso, já que em vez de solidariedade, esses conteúdos explícitos podem disparar sofrimentos difíceis de superar.

A questão principal é: vale a pena expor o público diante de nós a imagens fortes, a vídeos com violências explícitas ou a relatos de abusos graves quando não sabemos como isso o afeta e, principalmente, quando não poderemos oferecer às pessoas diante de nós o suporte que pode ser necessário caso o conteúdo dispare essas fortes emoções? 

Esse questionamento funciona também para nossas relações pessoais. Quando tentamos abordar assuntos delicados com as pessoas a nossa volta, especialmente os ligados à temática de gênero, é sempre importante ter em mente que determinados assuntos podem desencadear emoções diante das quais não seremos capazes oferecer o suporte necessário. Em todo caso, é indicado avisar sobre o conteúdo da fala e perguntar se a interlocutora quer ser exposta a esse conteúdo. Não é muito difícil: basta se colocar no lugar da outra, livre de julgamentos, e buscar os recursos mais cuidadosos para atingir os mesmos fins. 

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