Ainda vale a pena falar sobre o Orgulho LGBT+?

O tema é polêmico e divide opiniões. De um lado, há quem ache que a Parada do Orgulho LGBT+ é despolitizada e foi cooptada pelo mercado. De outro, ainda a urgência da visibilidade e da valorização da diversidade. 

Dia 28 de junho é o dia do Orgulho LGBT+ no mundo. A data tem origem em um episódio ocorrido em Nova York, em 1969, quando pessoas que frequentavam o bar Stonewall Inn, conhecido pelo público de gays, lésbicas, bissexuais e trans, reagiram contra a perseguição da polícia, que tinha por hábito realizar batidas e revistas violentas no local. O motim foi especificamente motivado por uma invasão da polícia no bar, na madrugada do dia 28 de junho de 1969. 

No ano seguinte ao levante, foi organizada a 1° Parada do Orgulho LGBT+, realizada no dia 1° de julho de 1970. Lembrar o episódio significa rememorar um levante contra a violência policial, celebrar a força de gays, lésbicas, bissexuais e trans para reagir contra essa violência institucional do Estado e a luta pelo direito de existir em um época em que o direito chancelava uma série de discriminações contra a população LGBT+. 50 anos depois, nenhuma dessas reivindicações faz parte exclusivamente do passado, principalmente no Brasil. 

No último dia 23 aconteceu em São Paulo a Parada LGBT+, que reuniu mais de 3 milhões de pessoas na Av. Paulista. O Orgulho LGBT+ é uma forma de garantir visibilidade à existência desse grupo e à importância de seus direitos, uma atitude positiva para se posicionar contra a violência, contra a discriminação e promover a dignidade e igualdade de direitos para a comunidade LGBT+. É fundamental para fortalecer as pessoas que ainda tem medo da violência e da repressão por serem quem são, estimula a visibilidade como um grupo social relevante, contribui para revigorar as reivindicações políticas da comunidade e estreitar seus laços sociais, além de celebrar a diversidade sexual e as identidades de gênero. Exibir todas as cores do arco íris, fantasiar-se, desfilar, cantar, expressar-se culturalmente de forma alegre em celebração da vida e da diversidade é uma forma de resistir contra os padrões heteronormativos – e uma que faz bastante diferença. 

Contudo, o movimento é por vezes visto com olhos desconfiados, seja pela parcela da população cujo ódio as impede de ver os motivos que acabei de explicar acima; seja por parte dos movimentos LGBT+ que preferem não comprar o pacote completo do que representa o Orgulho LGBT+, estes últimos, evidentemente, em um espectro totalmente diferente do primeiro. Não vou tratar das “críticas” feitas pela primeira parcela de pessoas, a dos conservadores e moralistas, porque se são incapazes de abrir os olhos para a diversidade da vida e das relações entre as pessoas, tampouco vão compreender as nuances que tudo isso pode representar. 

Assim, vou me concentrar naquilo que pode ser mais construtivo, que são as críticas aos rumos que os movimentos LGBT+ tem tomado. Quem não compra o pacote completo do Orgulho geralmente argumenta dois pontos bem espinhosos: a despolitização desse movimento e o patrocínio por grandes empresas. Há sentido ainda no Orgulho LGBT+ quando levamos 3 milhões de pessoas à Av. Paulista sem uma pauta política definida, em especial em um momento político como o que vivemos? Há como conciliar – e se sim, se devemos conciliar – as reivindicações políticas da comunidade LGBT+ com o que chamam de “pink money”? Como movimento heterogêneo que é e não poderia deixar de ser, a comunidade LGBT+ divide-se a respeito do Orgulho e essa discussão é também muito importante.

A edição de 2019 da Parada LGBT+ de São Paulo não foi só recordista em número de participantes, mas também foi marcada por uma maior politização que nos anos anteriores. Em 2019, o tema foi 50 anos de Stonewall e o lema da Parada “Nossas conquistas, nosso orgulho de ser LGBT+”. As falas nos trios elétricos de defensores e defensoras dos direitos LGBT+ frisaram a importância da criminalização da LGBTIfobia e criticaram o governo federal; marcando o contexto de cortes e retrocessos em que vivemos. É verdade que muito se diluiu nas apresentações das artistas que logo em seguida subiram ao palco, já que a falta de uma articulação política evidente não é novidade nas Paradas no Brasil, mas é importante não invisibilizar essas falas e aprofundar cada vez mais o potencial político e reivindicatório de movimentos como esse. Ocupar as ruas e vestir-se de Orgulho é uma manifestação política: garante visibilidade e contribui para a valorização da diversidade. Não é suficiente, mas precisa também ser reconhecida. 

Em segundo lugar, esta edição da Parada foi patrocinada por três grandes empresas, que se colocam como defensoras da implementação de políticas de diversidade e inclusão. Isso levanta uma série de discussões. Apesar da importância das críticas estruturais que atacam as dificuldades de superar por essa via um sistema naturalmente excludente, é importante lembrar que o reconhecimento de direitos no mercado de trabalho, a garantia da igualdade e a permanência das pessoas LGBT+ nesse lugar assegura a elas a sobrevivência no mundo capitalista em que vivemos. No caso das pessoas trans, as intransponíveis dificuldades de acesso ao mercado de trabalho as empurra para um cenário cruel e violento de marginalização e faz com que a expectativa de vida delas não ultrapasse os 35 anos. 

Esse é só um exemplo do porquê as empresas podem e devem apoiar a diversidade e a inclusão; do porquê elas podem e devem investir na visibilidade e operar um papel social crucial para a implementação de direitos. A obrigação de contribuir para um mundo mais igualitário e justo é das grandes corporações também; o dever delas é ético e legal. A coisa certa a se fazer é sim investir na inclusão e na permanência da comunidade LGBT+ dentro desses espaços; que se multipliquem, então, ações que de fato diminuam os abismos construídos entre as pessoas por conta de identidades de gênero e orientações sexuais diferentes dos padrões que condicionam a nós todas. 

A questão fundamental aí é outra, que também é o pano de fundo da discussão anterior: o dia 28 de junho é um só, o mês de junho acaba e não pode terminar com ele a visibilidade da comunidade LGBT+. O potencial político de movimentos como a Parada precisa ser levado adiante para o restante do ano; as empresas precisam comprometer-se efetivamente com a inclusão e permanência das pessoas LGBT+ em seus quadros no restante do ano. Há muitas formas de fazer isso, uma delas, na iniciativa privada, é investindo em capacitação de colaboradores e colaboradoras a respeito desses temas, na formação de grupos de funcionários dentro das empresas para discutir e fortalecer essas pautas. 

Nessa discussão toda, ainda falta muito pra falar. As invisibilidades que atravessam as demais letras da sigla são um ponto também muito duro: sabemos do protagonismo que homens gays geralmente tem dentro de movimentos pela inclusão e diversidade que apaga, não sem querer, as dificuldades muito maiores e mais duras para as mulheres lésbicas e bissexuais; precisamos ter consciência das violências brutais sofridas pela população trans e do apagamento das demais identidades e orientações que precisam ser vistas na sigla, como queers, intersexuais, assexuais, pansexuais, etc. 

O que precisamos lembrar é que essa é uma discussão com muitas vozes, proporcionais à diversidade que carregamos entre nós, e promover uma discussão realmente construtiva é dar espaço para todas elas sejam ouvidas, seja em junho ou no restante do ano.  

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *