Sobre a mulher aproveitadora e o menino ingênuo

Foto: Valéria Kotacho Lopes

Foto: Valéria Kotacho Lopes

A cultura do estupro é o nome dado para aquilo que na nossa sociedade legitima a violência sexual contra a mulher, seja pelas roupas que ela veste ou seja pela forma como se comporta. A cultura do estupro divide as mulheres entre boas e más, entre santas e putas, entre as que são para casar e as que não servem pra isso. Esse discurso incide sobre as mulheres culpando-as sobre as violências sexuais que sofrem e é um dos maiores motivos pelos quais as mulheres se sentem compelidas a silenciar sobre os casos de assédio ou estupro que viveram.

É a cultura do estupro que faz com que as mulheres, quando denunciam violências sexuais, sejam julgadas pela sua reputação, pelos relacionamentos anteriores, pela maquiagem, pelas roupas, pelos hábitos. O julgamento de um crime de estupro não é nunca sobre as circunstâncias do crime, sobre os fatos, sobre o autor. É sempre sobre a reputação da vítima, que precisa se enquadrar no ideal de mulher criado pela moral dominante. A mulher que denuncia uma violência sexual deve provar que é uma “típica vítima de estupro”.

Esse discurso fundamenta, por exemplo, a dicotomia entre mulher honesta, cujo modelo ideal a mulher casada deve atingir, e a prostituta, o extremo oposto que simboliza a infidelidade e a imoralidade. Essas duas mulheres, a mulher honesta, a casada, e a prostituta, não tem direito algum a sua liberdade sexual. A casada porque deve satisfazer as necessidades do marido, sendo legítima a violência para a garantia e manutenção do poder do marido sobre ela – há quem, no direito, até pouco tempo atrás, sustente que o estupro marital era “exercício regular do direito”; e a prostituta por representar a promiscuidade e fugir do que se espera de uma mulher – que seja honesta, fiel, passiva, submissa. No machismo, aquela que não é santa, é puta – e as duas cederam completamente sua liberdade sexual; deram, supostamente, consentimento tácito a todas as suas relações sexuais.

O problema, é claro, é que o patamar de “vítima” é absolutamente inatingível. Dividimos mulheres entre boas e más, entre vítimas e aproveitadoras, e reforçamos critérios impossíveis, cruéis; fortalecemos as mais duras violências contra as mulheres. Em vez desses padrões morais que nos submetem aos estereótipos de mulher honesta ou prostituta, precisamos entender que, em vez de ser sobre sexo, o estupro é sobre poder, sobre manutenção das mulheres em uma posição hierarquicamente inferior aos homens; é sobre relegar a mulher ao status de coisa; e manter o homem no lugar “do cara”. Isso precisa ser levado em consideração quando falamos de qualquer caso em que uma mulher denuncia violências sexuais.

Uma mulher casada pode sim ser estuprada. O estupro marital é um dos maiores tabus entre as mulheres, que se sentem compelidas a cumprir um dever, mesmo sem vontade, porque sentem que já abriram mão de sua liberdade sexual. Uma prostituta pode sim ser estuprada. Ainda que se parta do ponto de que uma relação sexual entre uma prostituta e um cliente seja consensual, um homem que pagou por determinados serviços pode extrapolar os limites impostos pela mulher e forçá-la a atos que ela não consentiu; porque mesmo prostituta ela não abriu mão de sua liberdade sexual. Uma mulher que troca mensagens eróticas com um homem, vai até o motel uma vez, pratica sexo consensual com ele, e, depois decide, pelo motivo que for, não realizar nenhum outro ato sexual e foi forçada a fazê-lo, foi sim estuprada.

Mais uma vez, estupro é sobre poder, é sobre subjugar a mulher e é a palavra chave é consentimento. Nada deve anular a liberdade sexual da mulher. Quem cala não consente, não é não e tantas outras frases de efeito precisam martelar na nossa cabeça antes de reforçar o julgamento sobre a vítima.

O caso que se tornou público no final de semana colocou uma lupa sobre a cultura do estupro e escancarou o machismo mais enraizado em cada um e cada uma de nós. O que aconteceu no caso do famoso jogador é o que acontece com as mulheres todos os dias: ao realizar uma denúncia de violência sexual, elas têm sua vida devassada, sua intimidade exposta e imediatamente são submetidas ao crivo que vai julgá-las putas ou santas. O caso em questão, contudo, é ainda mais grave, mais triste, mais cruel.

O ingênuo menino de 27 anos fez de sua conta no Instagram, uma das 10 com mais seguidores da história, um incomensurável tribunal sobre a reputação da mulher que o acusou. Em seis minutos de explicação, alcançou 120 milhões de pessoas e multiplicou pelo seu número de seguidores o sofrimento intenso que já passa qualquer vítima de violência sexual. Em vez de defender-se dentro do processo judicial, no qual é assegurado o direito ao segredo de justiça, o fez para um público sem igual no planeta.

Em seus seis minutos de explicação com direito à exposição de conversas e fotos íntimas da moça sem o seu consentimento, o jogador passou à vítima, tornou-se o menino ingênuo, alvo de uma sedutora, sensual, e ardilosa mulher. O retrato é típico e apela aos estereótipos de gênero conhecidos em nossa cabeça; o caso poderia ser a narrativa de inúmeros outros. O problema é que foi amplificado pelo poder e influência de um astro do futebol mundial.

Todos têm direito à ampla defesa, ao contraditório e ninguém deve ser condenado pelos tribunais das redes sociais. Não se sabe o que de fato aconteceu, as autoridades policiais e judiciais darão conta de processar e julgar este caso como o fazem com outros. O que se sabe, contudo, é o impacto absurdo que esse caso teve para reforçar a cultura do estupro, a culpabilização das vítimas e para endossar estereótipos de gênero que violentam as mulheres. O mito de que há muitas denúncias falsas de estupro para prejudicar e extorquir homens vai ressonar com mais força do que o discurso real: o de que mulheres se calam e não denunciam violências sexuais por medo, constrangimento, coação.

Meninos e homens aprenderão com a tática de Neymar. Mulheres vítimas de estupro e que se calaram assistirão a tática de Neymar; elas saberão que seus segredos continuarão com elas. Mais uma vez ensinamos que as condenadas serão as mulheres e a elas não há contraditório, ampla defesa; o poder que incide sobre nós é implacável.

7 respostas a “Sobre a mulher aproveitadora e o menino ingênuo”

  1. Pelo amor de Deus. Vc realmente acredita que a mulher foi abusada pelo Neymar e que isso não passa de uma falcatrua de uma aproveitadora?
    Mulheres iguais essa que deslegitimizam o “movimento” e a “sororidade” feminina que vocês devem combater, pois ela transforma em piada toda representatividade que qualquer movimento feminista possa ter.
    Pensamento progressista está acabando com o mundo.
    Paz.

    1. A questão levantada no texto não é essa sobre a colunista acreditar ou não em alguém, mas sim sobre o contexto histórico e também futuro que esse tipo de situação possibilita, amplificada pelo.alcance midiático do referido jogador e seus seguidores no julgamento que deve ser exclusivamente realizado com base em provas.

  2. Excelente texto 👏🏼👏🏼👏🏼
    Muito bem colocado. Não podemos tirar conclusões precipitadas, nem julgar a mulher pelo teor das conversas.
    Neymar não deveria ter exposto as conversas nem fotos, isso deveria acontecer no processo sigiloso.
    Assim, o caso seria apurado de forma correta para chegar à verdade dos fatos e concluir se houve crime ou não.

  3. Sempre conto sobre o mito grego de Gaia. …. uma violência sexual a faz criadora de tudo. Toda a racionalidade ocidental tem como pano de fundo essa violação. Aonde se encontra essa violência fabricante e fabricada na criação do mundo? São camadas de significados. ….. começamos a escavação.

  4. Entendo o ponto de vista defendido pela autora. Mas todas as evidências do caso Neymar demonstrar, com riqueza de provas, que a modela em questão está sim tentando tirar proveito da situação. E honestamente isto não ajuda em nada às vítimas reais. Sou contra a cultura do estupro, mas também não quero promover uma “cultura das falsas denúncias de estupro” – que está bem clara neste caso!

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