Entre mulheres

Conversar entre mulheres é entusiasmante. Quando sei que uma reunião de trabalho acontecerá somente entre nós, fico aliviada e, ao mesmo tempo, empolgada. Sei que, ainda que resguardados os vieses individuais, há potencial para que haja acolhimento, incentivo, compreensão e diálogo. Intuo que todas nós sentimos o mesmo em alguma medida.

O que há de promissor nas conversas entre mulheres é ainda maior quando as interlocutoras são diferentes. Quando olhamos nos olhos daquelas que não vem dos mesmos lugares que nós mesmas, quando enxergamos identidades e orientações sexuais distintas, quando interagimos vindas de origens e classes sociais diversas. Enxergamos isso tudo e tudo mais que vem junto. Essas diferenças nos colocam em lugares distintos, vemos e sentimos a partir de onde estamos; e tudo isso incrementa a possibilidade de vivenciar o diverso e reconhecer a outra, em uma experiência plural e desmanteladora.

É claro que essa sensação desperta a necessidade de reconhecer o gênero, e as desigualdades dele decorrentes, como elemento fundante da nossa sociedade. Perceber a importância das conversas entre mulheres, da transmissão de conhecimento, do acolhimento e da valorização das nossas diferenças é uma forma de resistir e combater as estruturas patriarcais que fundamentam tão drasticamente as nossas relações sociais. Ver o mundo pelas lentes da categoria de gênero é o que propõem inúmeras teóricas feministas e por que não ser o que orienta a atuação profissional de uma advogada?

É por isso que optei, junto a, felizmente hoje, muitas colegas Brasil afora, atuar especificamente nas causas ligadas às desigualdades de gênero. Enxergar o direito a partir dessa perspectiva significa contribuir para a construção de uma prática jurídica que leve em conta as estruturas de dominação do gênero, mas também significa atuar de forma mais humana e ver as soluções jurídicas como etapas de um processo muito mais amplo de fortalecimento, superação e resistência.

Esse blog surgiu, então, para abrir um canal de diálogo entre nós. Não há limites para o quanto podemos expandir o potencial dessas conversas, especialmente quando se dão por um veículo plural, aberto e comprometido com a diversidade. Há muito que se falar sobre o direito na perspectiva do gênero, sobre os direitos das mulheres e das lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersexuais; conhecimento emancipa e o diálogo constrói. Vamos juntas iniciar essa conversa.

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