Trauma: “Tenho dificuldade até hoje de passar pela Rodovia do Xisto”

Nos últimos dias a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados (Fafen-PR) voltou ao noticiário pela sua capacidade de produzir oxigênio e atender hospitais durante pandemia da Covid-19. Fechada desde fevereiro do ano passado, com demissão de aproximadamente mil trabalhadores, sua estrutura é propícia para produção do item essencial para salvar vítimas do coronavírus.

Mas ao resgatar a história da Fafen-Paraná, vieram à tona os meses de luta contra seu fechamento. Um processo abrupto e que impactou psicologicamente milhares de famílias do município da região metropolitana de Curitiba. Operários que dedicaram 20 anos à unidade foram demitidos por carta. Os documentos eram enviados a conta gotas, o que deixava a situação ainda mais angustiante.

Para a psicanalista e mestre em Psicologia Clínica pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Madalena Becker de Lima, que também atua pelo Sistema Única de Saúde (SUS) atendendo crianças em risco social e fundadora da plataforma Psi Social, trabalho de democratização da psicanálise para pessoas em situação de desemprego e vulnerabilidade, “o fechamento da Fafen traumatizou não só os funcionários, mas também os familiares dessas pessoas”.

Madalena explica que o apagar das luzes de uma fábrica cria uma desagregação do ego do trabalhador. “Algumas fábricas usam como narrativa que vão dar segurança para seus funcionários. Quando essa promessa é quebrada as pessoas acordam sem chão, não se reconhecem mais, o que gera insegurança e medo. Isso para a família inteira”.

O assunto é difícil, trata-se de um problema silencioso. De acordo com a profissional, o desemprego deixa a pessoa sem força para buscar tratamento. “O trauma coloca uma dificuldade enorme para se falar sobre o sofrimento. Ele emudece”, explica.

Recentemente dois ex Fafen aceitaram conversar sobre o pós fechamento da fábrica. Depois de um ano, tudo que aconteceu na unidade da Petrobrás continua vivo para esses trabalhadores que tiveram suas identidades preservadas.  

Para João Pedro, os últimos dias na Fafen foram angustiantes. “A demissão foi uma fase que mexeu muito com meu psicológico. Sentimento de perder o chão. Não tive forças para voltar ao mercado de trabalho, foi uma espécie de pânico. Tenho dificuldades até hoje de passar pela rodovia do xisto (caminho do meu trabalho)”.

Foi o apoio da família que deu forças para João retomar sua vida. “Tive muita dificuldade para superar essa demissão (mais de 20 anos na empresa). Não tinha coragem para nada. Meses se passaram e estou com outros objetivos, longe da minha profissão, porque não consigo me ver trabalhando na função novamente”.

Outro trabalhador, Paulo José, teve que mudar de atividade e hoje toca seu próprio negócio. Quando questionado sobre os tempos de Fafen, ele relembra que a atuação e conduta de alguns funcionários, no processo de sucateamento, deixou traumas. “Não ter vontade de voltar para a indústria petroquímica é um deles”.

Paulo procurou um profissional, em agosto de 2020, para tratar da sua saúde mental. “Nessas horas o importante é ter a cabeça em ordem. Se pudesse, todo mundo deveria fazer. Você busca uma academia para o corpo, mas é preciso um acompanhamento psicológico para a saúde mental”, explica.

Ele estava entre os profissionais que impediram um acidente ampliado entre os dias 31 de janeiro e 01 de fevereiro de 2020, quando houve vazamento de amônia na fábrica. “O negócio extrapolou qualquer barreira de proteção, não só para nós, mas para a refinaria ao lado (Repar), para outras fábricas em volta e para a comunidade no entorno”, recordou.

Na tarde de 01 de fevereiro o Ministério Público (MP) entrou na fábrica e retirou os trabalhadores. Paulo recorda quando as autoridades estiveram no ambiente de trabalho e também foram expostos à concentração excessiva de amônia. “Foi um momento crucial para o MP nos retirar da unidade”. 

Impactos

Esses relatos são cada vez mais comuns no dia a dia da classe trabalhadora. Atualmente, com recessão, crise política e pandemia, há uma grande parcela da população desassistida. “Presenciei fila de mais de dois anos de espera para receber atendimento. Pessoas em depressão, crise de pânico, ideação suicida, não têm todo esse tempo”, aponta Madalena.

Como alternativa para ampliar os atendimentos, a psicanalista, após 10 anos de trabalho no Sistema Única de Saúde (SUS), idealizou o Psi Social. Plataforma na web com 25 analistas que promovem atendimentos por um valor mais democrático. Nesse primeiro ano de atividade já receberam mais de mil pessoas.

Depoimentos como os desses operários refletem a realidade das fábricas brasileiras em regiões onde há privatizações e desindustrialização. É o resultado da agenda neoliberal do governo federal. E é nessa mesma linha que segue o novo livro do psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto e Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), “Uma Biografia da Depressão” (Editora Planeta/fev2021). 

De acordo com Dunker, há diversas explicações contemporâneas para o agravamento dos quadros de depressão. Elas vão desde os discursos neoliberais de meritocracia — em que sucesso e fracasso tendem a ser individualizados — à crise dos últimos anos em que os horizontes prometidos deixaram de ser cumpridos.

A depressão atinge 5,8% dos brasileiros e, segundo o psicanalista, é uma forma de sofrimento compatível com o neoliberalismo. “Com a ideia de que a produtividade é fator fundamental na apreciação da vida e de que as vidas devem ser apreciadas e interpretadas como se o eu fosse uma empresa”, afirma Dunker.

João Pedro e Paulo José são nomes fictícios para preservar a identidade dos trabalhadores.

Blog Energia

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