Histórias de uma Curitiba Plural

Uma paciente em busca de respeito

Acabei de sair de uma consulta com três receitas de medicamentos controlados na mão e uma vontade enorme de chorar. Há mais de dez anos sou diagnosticada com Transtorno de ansiedade. Já tive momentos de grande euforia e sensação de estar curada. Em outros, pareço estar num beco sem saída, sem controle sobre minhas emoções, meu intelecto e minha capacidade de ser criativa.

Em quinze minutos de consulta, o médico psiquiatra que estava me atendendo pela primeira vez fez basicamente duas coisas: digitou no computador e me interrompeu enquanto eu tentava explicar afinal, o que precisava dele.

“Eu sinto que o [medicamento que tomo] me deixa sem capacidade para escrever, sem tesão pelas coisas enquanto não…”, estava dizendo quando sou interrompida. “Mas é isso que medicação como essa faz com o paciente”, não esclareceu nada o médico. E entrou num discurso sobre como os pacientes não entendem como o remédio funciona. Como ele sabe se não se deu ao trabalho de me deixar concluir?

Tomar antidepressivo e ansiolítico não é uma decisão que pode ser leviana. Já tive crises estranhíssimas quando deixei de lado uma medicação sem fazer a redução escalonada. Como todo remédio, esses devem ser analisados numa balança: os ganhos superam os efeitos colaterais?

Este blog é motivado por situações assim, em que como pacientes não nos sentimos ouvidos, respeitados. Que somos tratados como mais um item a ser marcado como concluído numa planilha diária. Quando nos sentimos principalmente sozinhos, com a pessoa a quem pedimos ajuda nos negando o mínimo.

Claro que a consulta de hoje não foi minha primeira experiência com a incompetência médica. Já publiquei um relato sobre minha experiência na UPA CIC, quando uma hérnia me levou para uma cirurgia de coluna de urgência. Já vi errarem com minha mãe, que morreu de fibrose pulmonar, mas não sem antes receber um diagnóstico desses de um médico tão grosseiro que nem ela nem meu pai conseguiram lidar com a situação até que ela se tornou inevitável.

Minha mãe também teve um breve atendimento com outra pneumologista que a convenceu que a fibrose poderia ser tratada com bombinhas para asma, uma recomendação que, claro, não teve o efeito esperado, mas implicou no gasto de centenas de reais dos meus pais num momento em que eles estavam prestes a começar a ter altos custos com o tratamento de minha mãe.

Não é só com médicos e médicas que nos sentimos maltratados. Profissionais ruins existem em todas as áreas. A particularidade do paciente é que ele não é um “cliente” no sentido tradicional. Medicina não é – vamos sempre insistir – só um negócio. Nem sempre o paciente está “comprando um serviço” e na maioria das vezes uma consulta médica não é só prestação de serviço.

Quem vai ao médico muitas vezes está fragilizado, doente. E não é exagero nenhum dizer que parte do cuidado médico inclui acolher tudo isso. Um médico não é um preenchedor de receitas médicas de luxo. Nem um paciente é um problema médico isolado.

Numa cultura social que trata o médico como uma espécie de deus, cujo tempo ele nos concede por pura bondade, é difícil para o próprio paciente saber, afinal, o que esperar de uma consulta médica e identificar o que é que deu errado. Apesar disso ele não escapa das consequências de atendimento médico ruim: os gastos desnecessários, os efeitos colaterais, outros problemas de saúde desencadeados pelo tratamento e, claro, muitas vezes o fato do problema médico não ter sido resolvido.

É isto que pretendo abordar aqui, neste Manual de sobrevivência do paciente. Como podemos conseguir ser melhor tratados e dar conta de nossos problemas médicos apesar dos maus profissionais e de um sistema ruim de saúde? Como podemos sobreviver a medicina e as médicos? Quem sabe possamos encontrar respostas juntos.

rocfreitas

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