Histórias de uma Curitiba Plural

Sem problemas imaginários, tudo é possível

Quando eu tinha uns 9 anos, meus pais contrataram a esposa de um amigo deles para dar aulas de violão e órgão para mim e meu irmão mais velho. Meu pai tinha acabado de comprar um órgão Minami naquele tradicional acabamento amadeirado com dezenas de botões coloridos e queria que a gente aprendesse a tocar. Era final dos anos 90, e a professora, que devia ter uns vinte e poucos anos, ia na nossa casa para as aulas.

Logo na primeira aula a moça encasquetou que meus dedos eram curtos demais, portanto não apropriados a nenhum dos instrumentos. Meu papel nas aulas era ficar sentada vendo ela dar aula pro meu irmão.

Claro que isso não me impediu de aprender. Comecei com os livros do Método Mascarenhas e uns anos depois entrei no Instituto de Música Carlos Wesley, que convenientemente funcionava do lado do local de trabalho do pai. Lá fiquei por uns bons cinco anos.

Parte da avaliação dos alunos no Instituto era tocar uma vez por semestre numa audição da escola toda. Você escolhia e estudava a peça por semanas e tinha que apresentá-la na frente de todo mundo (tinha também uma prova com banca, igualmente enervante).

Pensei nisso quando uns dias antes do Rock Camp alguém me perguntou se eu achava que as pessoas tinham “o dom” ou se dá para treinar alguém para ser bom em algo. Como filha de matemático, acho que a questão é muito mais de probabilidade. Se você quer colher o morango perfeito, dá para plantar uma única planta e cuidar com esmero dela, mas a chance é maior se você tiver mais plantas e dar condições a todas para produzirem seu melhor.

Só que com gente a coisa é um pouco mais complicada. Entre uma criança e uma futura musicista brilhante há um caminho que precisa ser pavimentado por oportunidades e acesso. E cujos obstáculos não precisam ser inteiramente removidos, mas é bom que eles não sejam intransponíveis.

Digo isso porque o que mais ouvi no Rock Camp entre as voluntárias é que estavam ali por causa delas mesmas quando criança/adolescente. Sinto que muitas tiveram a própria versão da professora-que-não-gosta-de-dedos-curtos. Mas isso não apagou a vontade de tocar um instrumento ou cantar.

Ter “dedos curtos”, porém, planta na alma da criança algo muito pernicioso: a ideia de que ela não deveria estar ali, não pertence àquele mundo. Infelizmente a professora dos dedos curtos não é uma ocorrência rara. Eu mesma posso listar centenas de vezes em que ela apareceu para mim, em diferentes formas.

Meu problema com ela não é que estivesse errada, afinal com dedos curtos consegui aprender e tocar. O problema é que foi um obstáculo colocado antes mesmo que eu tivesse a chance de chegar perto do teclado. Uma criança é uma multitude de possibilidades. Pra que sair criando impedimentos?

É este o grande problema com estereótipos de gênero, eles criam impedimento onde antes só existia oportunidade. Só para manter confortáveis um bando de gente velha e amarga por não ter tido as mesmas chances. Gente que não pode brincar, jogar, amar, viver por causa de problemas imaginários.

E taí justamente a beleza do Rock Camp e todas as pessoas maravilhosas que transformaram os impedimentos que a vida colocou na vida delas em oportunidade para dezenas de crianças. No Camp há apenas certezas: você vai aprender um instrumento, vai compor uma música e vai se apresentar num palco no fim de uma semana. E quer saber? Todo mundo consegue.

Aí outra revelação: para incentivar alguém não é preciso nada extraordinário, só dizer “vá” e as pessoas vão. Na minha adolescência no Instituto Carlos Wesley só ouvi: vá e toque. Nunca me ocorreu que eu não seria capaz de conseguir, porque a mente jovem é cheia de possibilidades. A dúvida é um corpo estranho, um veneno.

Não sei quantas crianças do Camp vão mesmo continuar a tocar e cantar. Mas que essa força que elas descobriram ao dar conta da missão que receberam siga com elas pelo resto da vida. Não há limites para quem acredita em si mesma.

rocfreitas

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