Histórias de uma Curitiba Plural

RCC (Refúgio Camp Curitiba)

Em 2020 durante minha segunda participação no Rock Camp me vi sentada em uma sala enorme e ainda assim repleta de pessoas incríveis, todas tão diferentes umas das outras que a mistura não poderia ser vista como menos do que inusitada.

Entre voluntáries diversas histórias, muitas tatuagens, piercings, cabelos coloridos e todos os tipos de vida, até aquelas ainda em gestação. Lembro de ter a segurança de ver algumas carinhas conhecidas, e lembro de ver a ansiedade e expectativa naquelas que sabia que estavam ali pela primeira vez. Lembro que me apresentei contando que era minha segunda participação, que estaria na equipe da cozinha e que o Camp era transformador – e que naquele ano não iria faltar nenhum rolê, ao contrário do anterior (quase irônico, uma vez que apenas algumas semanas depois a vida do mundo inteiro virou de cabeça pra baixo).

O que não contei naquele dia foi que o Rock Camp talvez tenha salvado minha vida. Como tantas outras que passaram pelo RCC nessas 5 edições (contando a online), eu também fui a criança esquisita, que não se encaixava e vivia em algum tipo de fuga, seja ela em livros, música ou videogames. Seguindo o padrão, virei a típica adolescente rebelde, que raspou moicano, pintou o cabelo com violeta genciana e azul de metileno misturados de forma caótica em creme pra cabelo. Como tantas outras tive que ouvir sobre o quanto eu era brava, raivosa e tantos outros adjetivos utilizados para descrever pessoas pardas e pretas quando ousam levantar sua voz e gritar “EI, EU TO AQUI, EU EXISTO”. 

E durante toda a minha vida eu acreditei nisso. Até 2019, quando fui aceita para participar da famosa banda da cozinha do RCC, e aceitei o desafio de integrar a equipe que iria cozinhar por uma semana para mais de 100 pessoas, sem ter ideia dos desafios que teria pela frente. A banda da cozinha fica nos bastidores, e eu te garanto, a gente já operou cada milagre que só Santa Renata pra conseguir fazer tudo funcionar e entregar um almoço divino pras crianças enquanto garante que o voluntariado também tenha combustível pra aguentar o pique dessa semana caótica.

No meu primeiro RCC eu não sabia o que esperar, e encontrei uma das coisas mais inesperadas que poderia ter imaginado conseguir: uma rede de apoio. Eu descobri no RCC que ainda havia motivos pra acreditar no mundo lá fora, e que nem todo mundo que é desconhecido quer te fazer mal, que há sim gente no mundo disposta a ajudar, cuidar e ouvir, sem esperar nada em troca, somente pelo simples amor de ver o fardo do outro um pouco menos pesado.

Minha primeira reação foi retração, e levou um ano pra perceber que a semente do Camp havia sido plantada em mim. Quem se voluntaria pro RCC ganha de brinde a participação vitalícia em um grupo de voluntariado eterno, que durante o ano serve como refúgio, como espaço pra compartilhar projetos, pensamentos, saudades e muito carinho.

Durante um ano eu estive naquele grupo e mesmo falando quase nada, só de saber que estava lá já era o bastante para me dar uma segurança que nunca tive antes, me afastando da depressão e me mostrando que “se cair um dia, no outro vai estar de pé”, porque eu poderia mandar mensagem a qualquer hora e ao menos uma daquelas pessoas incríveis tiraria um minuto pra me responder.

Durante minhas participações pude ver em várias crianças campistas os mesmos traços que tinha na infância. A timidez, os gostos “esquisitos” e a sensação constante de deslocamento. A diferença é que nas crianças estes traços nunca passavam de segunda-feira, quando as bandas são formadas e o projeto começa.

E em cada dia de cada edição do Camp a vida se renova, a cada banda formada, a cada ano,  cada criança que se encontra com “os seus” e percebe que não é “estranha” ou que não é menos melhor do que aqueles que tem gostos “comuns”, a cada momento mágico que só acontece no Camp, tudo isso só é possível porque um dia quatro pessoas se juntaram com uma ideia que tinha tudo pra não funcionar, acreditaram em um projeto, dedicaram dias, noites e muitas lágrimas pra tirar a ideia do papel, e com isso conseguiram centenas de pessoas incríveis com um propósito: não deixar o medo de ser diferente tomar conta daquelas crianças que um dia já fomos.

Franciane Lima Rosa é redatora, estudante de Comunicação Organizacional e voluntária em três edições do RCC.

rocfreitas

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