Olhar de Cinema: “Los Lobos” e a asfixia migratória na era Trump

A 8ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba começou na última quarta-feira (7). Desta vez, o consolidado evento de filmes independentes é totalmente on-line. Mas a proposta, ao que parece, continua sendo difundir produções contemporâneas que tenham sensibilidade sociopolítica. Em tempos em que fatos se confundem com versões, o cinema comprometido com a realidade é uma alternativa valorosa.

Um bom exemplo é o longa-metragem mexicano “Los Lobos”, de Samuel Kishi, exibido na última sexta-feira (9) e com nova data online no próximo dia 13 (terça-feira) – os filmes estão sendo disponibilizados dia a dia no próprio site do festival.

O “sonho americano” virou um anacronismo em sua essência e tornou-se um risco nos últimos anos, principalmente durante o governo Trump, quando muros em fronteiras subiram e ataques a imigrantes recrudesceram. “Los Lobos” começa de forma irônica quando uma família mexicana despedaçada chega a Albuquerque, cidade do estado do Novo México. Os planos iniciais, abertos, sugerem um road movie. Mas a partir daí, é o enclausuramento e a asfixia étnica que conduzem a obra.

Lucia (Martha Reyes Arias), Leo (Leonardo Nájar Márquez) e Max (o impressionante Maximiliano Nájar Márquez) conseguem enfim encontrar um apartamentozinho para alugar com as economias que a família guarda num pote de batatas. O complexo de moradias é tocado por um casal de imigrantes chineses, que, numa sequência comportamental compreensível, é rude e insensível com os recém-chegados.

Lucia arranja dois empregos e a cada dia passa mais tempo fora de casa. Os meninos, os lobos, se viram como podem presos dentro da sua própria noção de sonho – a pergunta “quando vamos à Disney?” é recorrente, e uma forte metáfora do que nunca irão encontrar. Lucia estabelece regras para a convivência solitária dos meninos, e a primeira é “jamais sair do apartamento”.

Calor, fome, tédio e tristeza acompanham os primeiros dias dos irmãos, que usam a criatividade condizente com sua própria idade para fazer com que o tempo passe mais rápido. Desenham personagens na parede, que viram animação nas mãos do diretor, dando um sopro de ludicidade e esperança àquilo tudo. Max, o mais velho, ensina Leo a amarrar os cadarços. Até que a vida aparece pela janela, com outras crianças imigrantes, e também com a solidariedade do casal chinês, que provavelmente se reconheceu em algum momento.

“Los Lobos” tem uma interessante estética realista em sua narrativa, e isso torna-se ainda mais potente quando o diretor usa planos nos quais pessoas da região, imigrantes, desiludidos e drogaditos, olham de frente para a câmera, com cara de poucos amigos. Já ao final, o mesmo recurso é utilizado, agora com o acréscimo de Lucia e dos filhos nas passagens, como se o trio abandonado já fizesse parte daquela heterogeneidade selvagem.

A bandeira dos Estados Unidos também é um elemento simbólico importante. Ela aparece, por exemplo, fragmentada num dos empregos de Lucia. Suplantada por mercadorias, está impávida numa cena em que o patrão repreende a colega que defendia Lucia no dia em que ela havia levado os filhos ao trabalho.

Em sua inocência, os meninos não entendem. Mas a Disney é inacessível. Não porque é longe e cara. Mas porque Samuel Kishi nos mostra, num filme ao mesmo tempo realista e sensível, que um desenho na parede de um apartamento claustrofóbico e caindo aos pedaços é mais convincente do que um passeio num castelo de mentira.

Cristiano Castilho

Cristiano Castilho é jornalista formado pela UFPR e pós-graduado em Jornalismo Literário pela ABJL. É autor do livro "Crônicas da Cidade Inventada e Outras Pequenas Histórias" (Arte & Letra).

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