Entrevista com Nick Drnaso, autor de “Sabrina”

Lançada no Brasil em 2020 pela Editora Veneta, “Sabrina” já pode ser considerada uma das melhores HQs do ano. Não apenas pela obra em si como formato de nona arte, mas também em sua concepção super contemporânea, afinal trata sobre desinformação, fake news, e muito mais.

Tão complexa quando o livro, é seu autor, Nick Drnaso. Em entrevista por e-mail, ele parece muito mais confuso em definir posições sobre sua produção. Para Drnaso, “é difícil ver o livro de forma objetiva”. Apesar disso, o que não falta em “Sabrina” não interpretações e posições. Da mesma forma que, apesar de tudo, também não falta a Drnaso.

Cláudio Gabriel: Como surgiu a ideia da HQ?

Nick Drnaso: Eu tinha pensado muito sobre os assuntos do livro na época, provavelmente 2013 ou 14. Sempre me interessei por teorias da conspiração. De alguma forma, isso se ligou à experiência de meus amigos na Força Aérea no Colorado, e comecei a pensar em uma história sendo construída em torno de uma pessoa que iria viver com um velho amigo para evitar a realidade de um sequestro e assassinato.

CG: O quadrinho traz a sensação do medo contemporâneo, principalmente de notícias falsas e vigilância. Por que foi importante para você trazer esse debate?

ND: Eu estava preocupado com essas coisas quando comecei o livro. Estava tendo muitos pensamentos paranóicos sobre abdução, assassinato em massa, coisas assim. Então, isso foi um sentimento pessoal, não tanto um comentário sobre qualquer coisa no mundo. Eu não sei. Ficaria lisonjeado se alguém estiver usando este livro para pensar ou falar sobre esses tópicos, mas eu realmente não posso me dar crédito por isso.

CG: Para você, esse trabalho pode ser considerado contemporâneo ou atemporal?

ND: É difícil dizer. Acho que será mais fácil em vinte anos. Eu tinha uma crença enquanto fazia isso, os temas eram atemporais e me perguntei se era o melhor ideia para torná-los tão enraizados em questões contemporâneas. Depois de terminar o livro, às vezes me pergunto se teria sido melhor colocá-lo em um período de tempo diferente, ou tentando evitar qualquer referência contemporânea. Talvez isso teria estragado tudo. Acho que não vale a pena insistir nisso.

CG: Diversas obras de arte recentes trouxeram o papel da desinformação na atualidade. mundo. Você acha que essa é uma tendência que pode perdurar? Acredita que é uma espécie de “mal do século”?

ND: Oh, não estou qualificado para falar sobre algo tão grande e difícil de entender. Estou cego pelo momento histórico em que nasci, e acho que nunca serei capaz de contornar isso. Tenho que imaginar que esses ciclos se repetem historicamente, então o os tópicos deste livro provavelmente já existem há muito tempo.

CG: De alguma forma “Sabrina” traz um lembrete desse mal que se espalha pela cidade, da maneira que parece estar diante de nós, mas não a vemos. Desta forma, é possível lembrar obras como Will Eisner, Chris Ware e Adrian Tomine com este tipo de pensamento. Como você vê isso?

ND: Eu provavelmente já havia absorvido algumas influências como essa quando comecei “Sabrina”, com certeza. É difícil para mim ver o livro de forma objetiva, o que dificulta entrevistas como esta. Sempre me sinto um pouco insatisfeito com minhas respostas e gostaria de ter mais clareza, mas acho que talvez seja bom ficar um pouco inconsciente. Tenho que voltar para minha mesa de desenho depois de terminar essas perguntas e não quero ser muito teórico sobre o que estou fazendo.

CG: “Beverly” [outra HQ do autor] ainda não foi lançada no Brasil. É possível compará-la em alguma forma com a “Sabrina”?

ND: Bem, os dois livros são do mesmo tamanho, e a grade do painel em “Sabrina” foi usada pela primeira vez em porções de “Beverly”. Ambos são projetados de forma semelhante, com o mesmo tipo de lombada para que eles formem um par em uma estante. Além disso, provavelmente há algumas semelhanças na narrativa. Eu acho que há uma distância emocional semelhante em ambos os livros, que você poderia chamar de frieza.

CG: Quais são seus próximos projetos?

ND: Estou bem adiantado com meu próximo livro, que está ocupando quase todo o meu tempo. Pode ser lançado em cerca de dois anos, e eu só posso esperar que seja à disposição dos leitores brasileiros. É sempre uma honra ser traduzido para outros línguas.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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