Da moradia à consciência: filme documenta ocupação urbana e a ameaça fascista

O direito à moradia e os “avisos” ao risco da eleição de Jair Bolsonaro à presidência da República, ainda em 2018, são os temas propulsores do documentário “Entre Nós Talvez Estejam Multidões”, que será exibido novamente no Festival Olhar de Cinema no próximo dia 15 de outubro – as sessões acontecem no site do evento.

O longa de estreia de Pedro Maia de Brito e Aiano Bemfica se instala na ocupação urbana Eliana Silva, na periferia de Belo Horizonte. A comunidade existe desde 2012, e nunca foi reconhecida. O filme começa com uma vitória sobre a invisibilidade: numa reunião improvisada, uma das líderes do movimento avisa que, a partir daquele momento, os moradores têm CEP e endereço.

Documentários sobre o que está à margem da sociedade brasileira sempre correm o risco de tornarem-se paradoxalmente inofensivos, devido à atenção total ao presente e à falta de contexto (político, social, cultural) que justifique o tema deste olhar documental, e portanto histórico.

“Entre Nós Talvez Estejam Multidões” é um filme vigoroso ao expressar as vicissitudes da ocupação, e também o risco àquelas famílias caso o presidente eleito fosse mesmo “o fascista” que se apresentou como alternativa durante e depois do golpe de 2016. Termos como este, “fascista”, e outros como “autoritário”, “preconceituoso”, antes tratados com cautela pela imprensa e pelos adversários políticos do atual presidente, são expostos no filme com naturalidade. Porque as famílias da ocupação têm um histórico de resistência, e isso é perceptível em cada entrevista, em cada plano calculado – alguns deles com uma flâmula de Salvador Allende, ex-presidente do Chile, deposto pelo golpe militar de Augusto Pinochet em 1973.

Além da força política muito atual e consciente, o companheirismo e o amor também embalam a vida na ocupação, organizada pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB). Há força e poesia, há música e expressão, há conquistas, glórias, a veneração de um passado construído aos trancos e barrancos, mas em conjunto, para o melhor de todos e todas. Os planos fixos das entrevistas e dos “debates” entre moradores são aulas práticas de resistência e consciência. Planos abertos do amanhecer e do anoitecer na vila sugerem que ali há vida pulsante e criativa, mesmo que o estado não a reconheça.

Como se emulasse as teorias de Eduardo Coutinho, “Entre Nós Talvez Estejam Multidões” se oferece ao que acontece. É o cinema como suporte comunicacional para um direito tolhido, e agora reconquistado, e não um filme de impressões e julgamentos. Exatamente por isso, para além de alguns exageros realistas, há cenas magistrais e memoráveis, como quando a mãe “porra louca” acompanha a passagem dos filhos pelo casebre onde moram, ou quando, num churrasco de amigos, alguém toca “Pais e Filhos”, da banda Legião Urbana, no violão.

“Entre Nós Talvez Estejam Multidões”, enfim, como muito do que se discute hoje, durante o governo teo-miliciano de um capitão fascistóide, não é sobre direita ou esquerda, mas sobre entender as desigualdades, e como superá-las em comunidade.

Cristiano Castilho

Cristiano Castilho é jornalista formado pela UFPR e pós-graduado em Jornalismo Literário pela ABJL. É autor do livro "Crônicas da Cidade Inventada e Outras Pequenas Histórias" (Arte & Letra).

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