A tristeza hulkiana

O conceito do personagem Hulk já é, por si só, de uma espécie de mortalidade inevitável. Bruce Banner, que dá cara humana a esse monstro, é uma persona atormentada, que parece não ver futuro em sua própria existência. Por isso, especialmente desde que ele se torna o Hulk, tudo começa a mudar ainda mais, o afastando de ser um ser social. Banner agora é basicamente alguém amargurado, que não observa nenhum futuro em nada.

A partir dessa ideia surge a minissérie “Hulk: Cinza”. Ela faz parte de uma série de obras da Marvel que exploraram cores de alguns personagens marcantes, para realizar histórias diversas, sempre com o mesmo time criativo de Jeph Loeb e Tim Sale. A que ficou mais marcada é “Homem-Aranha: Azul”, basicamente uma HQ sobre amor. As outras duas foram, além do cinza, “Demolidor: Amarelo” e “Capitão América: Branco”. Essas de menos impacto dentro da indústria. Porém, nosso foco aqui é no gigante verde – que, no caso aqui, é de outra cor.

Basicamente falamos de um quadrinho sobre melancolia, já que basicamente a trama funciona em uma conversa entre Banner e seu psiquiatra, enquanto o primeiro rememora sua vida como esse ser. Ele remonta o momento que se torna, verdadeiramente, o Hulk, para poder então começar a entender a si mesmo. Por que aquilo teria acontecido com ele? Até que ponto a mentalidade dos dois é afastada ou então próxima? Existem conceitos bem claros de psicanálise explorados nesse caminho. E o principal é a relação com as diverses psiques humanas, a qual, em Bruce, estão concetradas sobre sua melhor e pior forma.

Porém, Loeb não foca apenas a narrativa em explorar as discussões de um ponto de vista apenas teórico, já que vemos um personagem verdadeiramente sofrido. A escolha estética das cores, a qual personagens que representam ameaça são coloridos, enquanto aqueles “amigos” estão sempre cinzas, faz parte de uma concepção de um homem quase maluco. Desse jeito, até que ponto Hulk verdadeiramente é ele mesmo? Aquilo representa alguém, ou é apenas mais uma faceta de Bruce Banner?

A HQ ainda tem um tratamento até bonito com a relação amorosa do protagonita. Isso porque até o gigante ve aquela mulher como uma figura de paixão, algo até platônico. Porém, isso não poderia dar certo. Rememora até bastante todo o conceito estabelecido em “A Bela e a Fera”, clássico escrito por Madame de Beaumont ainda no século XVIII.

Toda a saga das cores, se é que podemos chamar assim, já remonta um trabalho clássico da Marvel, apesar de ter sido realizado ainda nos anos 2000. Ao buscar lados mais afundo de cada um desses personagens, para além de suas aventuras tradicionais, vemos um grande desenvolvimento de personas complexas e como suas origens estão atreladas a quem são. Isso é feito de forma mais clara e complexa ainda mais em “Hulk: Cinza”, visto que trata de um estudo sobre a psique humana. Ao final da leitura, é quase possível pensar: será que também não temos um Hulk dentro de nós? Bom, só um psiquiatra para saber.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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